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Reportagens em espaços naturistas e a visão do corpo nu - Artigos III - Associação Naturista Pensamentos ao Vento

Reportagens em espaços naturistas e a visão do corpo nu
No passado dia 16 de agosto, a Associação Naturista Pensamentos ao Vento foi contactada pela TVI no intuito de saber se teríamos disponibilidade para uma reportagem televisiva numa praia naturista para o programa de informação matinal Esta Manhã. Sendo um dos nossos principais propósitos a divulgação do Naturismo, considerámos como uma proposta que não se poderia recusar, pois tratava-se de uma reportagem sobre Naturismo, num espaço naturista. O único senão seria que a reportagem devia acontecer logo no dia 19. No entanto, tentámos agilizar as condições de modo a podermos efetuar os dois diretos solicitados. Sendo num dia de semana, apesar de estarmos em tempo de férias, não foi possível conseguir sócios ou simpatizantes em número considerado adequado para esta ação. Ainda assim, conseguimos que três sócios (Presidente, Tesoureira e a Associada Isabel Reis) marcassem presença no areal da Praia Naturista da Adiça, logo de manhã bem cedo.
Fomos informados de como se iria processar a reportagem, em dois diretos, onde seriam colocadas algumas questões relacionadas com a prática do Naturismo, a Associação e a experiência pessoal de cada um. Foi-nos também solicitado para dispormos a alimentação que levássemos, de modo a ser percetível para quem nos pudesse estar a acompanhar. O operador de câmara referiu que iria tentar não nos captar abaixo da cintura e manter o plano afastado no caso de o ter de fazer, de modo a que não existisse qualquer problema para quem acompanhasse o programa, uma vez que os naturistas presentes não iriam ter qualquer problema com isso. Referiu ainda ter a tarefa facilitada devido ao frio obrigar a que as naturistas presentes estivessem de camisola vestida.
É entendimento desta coletividade que todas as reportagens que se possam fazer acerca do tema Naturismo serão sempre uma mais-valia para o movimento, desde que os seus intervenientes saibam e consigam dignificar o Naturismo. A repórter Susana Pinto esteve, em nossa opinião, excelente na forma como conduziu a reportagem, e pelas perguntas colocadas, em que primou por temas importantes para a divulgação e desmistificação do Naturismo e de divulgação da Associação. Bem como pela simpatia durante todo o tempo que esteve presente na praia. Os Associados presentes responderam às perguntas colocadas de uma forma honesta e mais ou menos descontraída e natural, contribuindo assim para a qualidade da reportagem no seu todo.
Assim, a Associação Naturista Pensamentos ao Vento considera que este momento de divulgação da causa naturista foi excelente. Ainda para mais, se considerarmos o horário e o tipo de programa em que passou, o programa de informação matinal de um dos canais de topo da televisão nacional e com expressão internacional. Uma reportagem em contexto naturista, como poucas se têm conseguido.
No entanto, um espectador mais atento à forma do que ao conteúdo, vislumbrou partes do corpo do Presidente da Associação que o operador de câmara não conseguiu deixar de captar e resolveu partilhar um desses momentos na rede social Twitter. Essa partilha, com cerca de um minuto de vídeo, foi acompanhada de um pequeno texto que dizia: “Uma boa dose de piroca logo pela manhã. Gostei da tentativa falhada do operador de câmara de tirar a pila do enquadramento.”
Curiosamente, vários naturistas, em conversa com os intervenientes na reportagem, comentaram posteriormente que, se não fosse por essa divulgação, nunca teriam reparado no pormenor.
Escusado será de referir que vários foram os internautas que, nas mais variadas redes sociais, comentaram e partilharam esta décima parte da reportagem. Para além destas partilhas individuais, também diversas revistas com plataformas online e presença nas redes sociais, fizeram uso dessa partilha e lançaram publicações (que, por sua vez, geraram mais umas centenas de partilhas) sem nunca aprofundarem o que quer que fosse da matéria retratada na reportagem e dando apenas destaque ao referido pormenor. Pormenor esse que não está presente apenas no excerto disponibilizado pelo internauta, mas em diversos outros momentos ao longo dos dois diretos. No entanto, como anteriormente referido, de pouco nos interessou a forma como a reportagem passou na televisão. À Associação e aos intervenientes interessou a mensagem que passou para os milhares de pessoas que assistiram em direto e para todos os outros que viram posteriormente a reportagem completa nas mais diversas plataformas.
Lamentamos apenas todo o “ruído” que se gerou em torno de um minuto de vídeo e de um pormenor com pouca importância quando comparado com todo o trabalho realizado ao longo dos quase 10 minutos de reportagem.
Compreendemos quem se indignou por não ter sido avisado para a visão de um corpo seminu, e pior teria sido se tivéssemos tido uma manhã de calor, em que a camisola teria sido desnecessária, mas não compreendemos que não possam ter aproveitado para aprender algo sobre o Naturismo e a sua prática. Curiosamente, pessoas houve que escreveram terem tido a necessidade anedótica de ver pelo menos mais uma vez para conseguirem ver a tal dose de piroca e depois vieram reclamar para as redes sociais por terem visto aquilo que insistiram em ver, mas não queriam ter visto.
Não compreendemos os que argumentam acerca das crianças que podiam estar a ver. Acreditamos que talvez tenha sido quem menos se preocupou com a visão de um corpo seminu, mas que com a sua argúcia infantil possam ter colocado algumas perguntas embaraçosas a pais menos dados a explicações sobre a natureza humana. Acreditamos que negar a simplicidade do corpo sem vestuário é negar a liberdade, a autoaceitação e a autoestima. É prender o corpo dentro da roupa e com isto prender também a liberdade da mente e sexualizar o corpo, ou partes do corpo, transformando aquilo que nos caracteriza externamente num tabu. E aquilo que se esconde desperta sempre mais curiosidade.
Mas isto foram situações às quais fomos tentando dar resposta em vários comentários nas redes sociais, a pessoas que não fazem a mínima ideia daquilo que é a prática naturista e que algumas até nem querem compreender. Para esses, apenas podemos dizer que lamentamos. Não pretendemos que todos virem naturistas, apenas queremos que compreendam o que é o Naturismo, o que é ser naturista, e que respeitem.
Por outro lado, também não compreendemos a falta de divulgação da reportagem por parte de outras entidades nacionais com responsabilidade no Naturismo e até a não permissão de partilha nos seus grupos nas redes sociais de uma publicação não proibida pelas regras dessas redes sociais. Ao não compreendermos as razões, ficamos com espaço para imaginar o porquê dessa não divulgação. Imaginamos que apenas possa estar relacionado com os intervenientes “errados” na reportagem e o alimento do ego de outros personagens.
Esta associação pauta-se pela divulgação do Naturismo, independentemente dos seus intervenientes, quando entende que o conteúdo defende os valores do Naturismo mais do que os valores pessoais, como entendemos ser o caso da reportagem em causa, e razão pela qual mantemos diversos conteúdos de media no nosso website.
E é precisamente isso que iremos continuar a fazer. Iremos continuar o nosso trabalho na prossecução dos nossos objetivos de defesa e divulgação do Naturismo e de implementação de iniciativas culturais, desportivas e recreativas, direcionadas para a nossa massa associativa e simpatizantes, com e sem nudez social, mas sempre com o propósito de divulgar e promover a prática naturista, independentemente da vontade, ou falta dela, de outras entidades e pessoas para quem o Naturismo é apenas uma plataforma de alavancagem pessoal, seja lá o que isso for.
Por José Luís Vieira, Presidente da Direção da Associação, em 12-09-2021
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