O corpo nu como reflexo de vida
Principalmente as mulheres, com o envelhecer, parecem começar a ganhar uma certa transparência ao olhar dos outros. Ou será delas próprias?
Nesta sociedade muito marcada pela imagem exterior, ao se atingir uma certa idade, em que o corpo começa a ganhar outras formas, visualmente menos sensuais aos olhos da sociedade, as mulheres tendem a deixar de ser olhadas como eram até então, ou deixam de se sentir olhadas como até então.
Talvez o Naturismo possa ajudar a contornar esta situação. Não tanto pela exposição do corpo nu, mas pela simplicidade e desprendimento da nudez em si. O facto de estar despido num contexto social é revelador de um grande à vontade com o próprio corpo, sem tabus associados a esquemas sociais fortemente implantados há séculos.
Também não será por o Naturismo fazer, de algum modo, regressar a sensualidade ao corpo. Definitivamente, não. O Naturismo desvaloriza o corpo por si só. Valoriza o ser, e o ser em conjunto com o seu próprio corpo. Um corpo mutável, que muda a cada dia, a cada trauma, etc. Um corpo que envelhece. Mas com essa mudança do corpo, muda também o ser. Amadurece o corpo e amadurece o ser, e será neste amadurecimento que o envelhecimento do corpo perde importância, pois é algo inerente à condição do Ser Humano, bem como a todas as criaturas conhecidas. Faz parte do ciclo da vida e pouco, mesmo nada, se pode fazer para inverter essa situação, ainda que possamos tentar esconder essa mudança com o recurso a pequenos reajustes no nosso corpo por via da cirurgia estética. E quanto mais depressa aprendermos isso, mais depressa o compreendemos como inevitável e o aceitamos.
Ao encontrar sentido nessa inevitabilidade aprendemos a nos aceitar, tal como somos, com as transformações de cada novo dia. Não nos podemos desvalorizar pelo envelhecimento e muito menos por qualquer hipotética desvalorização social face ao envelhecimento do nosso corpo. Podemos perder em vigor e agilidade, mas ganhamos em experiência, astúcia, compreensão, respeito, inteligência pessoal, social e emocional. Temos muito mais a ganhar do que a perder com o envelhecimento. E se o sentirmos como algo negado a muitos, então ainda nos sentiremos mais enobrecidos.
Esconder esse amadurecimento não é lógico, tal como não é lógico esconder o nosso corpo. O nosso corpo, apesar de diferente nas suas particularidades, é igual a todos os outros no seu geral. Ao escondermos o nosso corpo amadurecido, escondemo-nos da sociedade, do outro, e negamos também a oportunidade dos mais novos terem um reflexo do seu próprio futuro amadurecimento e aprenderem que há beleza nesse amadurecimento.
Há beleza, há vida, autoconfiança e simplicidade. É natural e inevitável. E até os corpos mutilados acabam por ter a sua beleza pela resiliência dos seres que albergam e que o mostram nas histórias patentes em cada cicatriz.
Tudo isto está latente num artigo de Margaret Talbot, datado de 1 de novembro de 2021, e que a seguir traduzo, em que a autora, perante um trabalho fotográfico de Jocelyn Lee, mergulha numa reflexão sobre a invisibilidade da mulher a partir de determinada idade concluindo que a nudez pode ajudar a ultrapassar essa invisibilidade, não tanto pela exposição do corpo nu, mas pela carga emocional e autoconfiança que pode imprimir nessas mulheres.
Alguns clichês sobre o ciclo da vida são verdadeiros. Quando se cria filhos pequenos, os dias parecem longos e os anos, curtos. E, no caso das mulheres, por volta dos cinquenta anos, tornar-se-ão invisíveis. Todas as vidas no feminino, como raparigas e mulheres mais jovens, preparam-se para serem olhadas. Crescem acostumados a registar, a atrair, fugir ou denunciar o olhar masculino. Em Mrs. Dalloway, Clarissa, recentemente ciente de si mesma como uma mulher de certa idade, caminha pela rua pensando: “Este corpo, com todas as suas capacidades, parecia nada, absolutamente nada”. A crítica cultural Akiko Busch, citando essa mesma frase de Mrs. Dalloway, observa que “uma sensação reduzida de visibilidade não restringe necessariamente a experiência”. É verdade, mas leva algum tempo até se habituar e quando é pontuado, como muitas vezes é, por condescendência (quando os estranhos de repente se dirigem a uma mulher de meia idade com uma piscadela verbal, como "jovem senhora", em vez de "senhora") pode não querer se habituar a isso.
A nudez é o oposto da invisibilidade? Talvez não, mas, se for assumida sem remorso, pode ser uma espécie de antídoto para diminuir e apagar essa invisibilidade. Um retrato de uma mulher despida com mais de, digamos, sessenta anos é uma imagem pouco comum, até mesmo um tabu. Fazer essas fotos e, mais ainda, posar para elas, é um ato de desafio. Ao longo da sua carreira, a fotógrafa Jocelyn Lee foi atraída por corpos nus de todas as formas e idades. O seu último livro, “Sovereign” (Minor Matters Books), apresenta uma seleção de fotografias da sua autoria com mulheres entre os cinquenta e os noventa, posando nuas, frequentemente ao ar livre e em ambientes naturais.
As imagens coloridas de Lee com mulheres mais velhas são pictóricas, clássicas, mas também francas. Pele enrugada, rugas e flacidez. Barrigas dilatadas e pregas. Uma mulher de cabelos prateados sentada de joelhos num lago coberto de folhas de outono, olhando diretamente para a câmara, os cotovelos para trás como asas para revelar uma mama intacta e uma cicatriz de mastectomia. Uma mulher nua sentada num cobertor de musgo na floresta, mamas e barriga macias, tão à vontade que poderia estar a dormir. Em “Nancy at 78, Maine at 18”, uma mulher e a sua sobrinha-neta estão nuas numa praia. Lado a lado, seus corpos de pernas compridas e cabelos encaracolados rimam, mas também nos lembram das diversas formas como o tempo vai transformar os nossos seres corpóreos a que nos habituámos. No entanto, A imagem não nos quer mostrar uma sombria inevitabilidade da vida. As mulheres inclinam-se confortavelmente uma para a outra, tocando os ombros; o braço da mulher mais jovem passa pelo braço da mulher mais velha. Atrás delas, o mar e o céu são de um luminoso azul claro.
Lee, com 59 anos, vive parte do ano numa luxuosa e arborizada propriedade nos arredores de Portland, Maine. Algumas das fotografias de mulheres mais velhas foram tiradas num lago perto da propriedade e outras nas praias de Martha's Vineyard e noutros locais. Os cenários naturais, desprovidos de detalhes sociológicos e inerentemente belos, tendem a banir as interpretações irónicas e a emprestar uma certa benevolência aos sujeitos despidos. Não estamos propriamente no paraíso, ninguém nessas imagens parece assim tão ingénuo, mas também não estamos em nenhuma espécie de espaço social carregado de julgamentos. Lee afirmou esperar que os locais transmitissem o calor do sol no corpo, "aquele tipo de conforto e amor", e transmitiu a ideia de que "todos somos criaturas essencialmente sensuais".
“A câmara pode ser muito cruel, dependendo de como se usa”, disse ela. “Existe toda uma tradição de fotografia que se baseia na criticidade e na crueldade. Diane Arbus (que eu adoro, aliás) procurou por momentos nada lisonjeiros para criar uma sensação de drama. Às vezes, isso pode ser feito com a justaposição de elementos num espaço, o exagero da aparência de riqueza ou pobreza, iluminação severa.”
Lee disse que, em contraste, o seu trabalho, por vezes, foi criticado por ser "muito sério ou romântico". Mas fez as pazes com isso há muito tempo. Através da sua fotografia, Lee tentou sempre entender “o que está por vir”. Quando ainda estava na faculdade, muito antes de ter filhos, fotografou uma amiga grávida, sem roupa, como parte da sua tese. “Isso foi antes da capa da Demi Moore Vanity Fair; as pessoas não sabiam realmente como era uma mulher grávida”, comentou. Ao longo dos anos, tirou muitas fotografias da sua mãe, nua, que, diz, tinha um notável à vontade com o seu próprio corpo. Lee continuou a tirar-lhe fotografias enquanto a mãe definhava com cancro.
A autora do texto é cerca de seis meses mais velha do que Lee e, no geral, considera que envelhecer é muito melhor do que a alternativa, como costumava dizer a sua própria mãe, que morreu aos sessenta anos, a idade que a autora agora tem. Mesmo assim, prefiro o espelho embaçado na minha casa de banho a qualquer um em que me possa ver claramente. As mulheres mais velhas que posaram despidas para Lee incluem professoras, escritoras, artistas, uma astróloga, uma funcionária do hospital psiquiátrico e uma autarca de uma pequena cidade. Para Margaret Talbot, elas parecem muito corajosas, mas incomoda-a dizer isso. Todos nós temos corpos; se tivermos sorte, todos envelhecemos, ou pelo menos ficamos mais velhos. Por que não mostrar como é?
Duas das modelos de Lee, Judith e Nancy, posam para ela há décadas. Ambas disseram que não gostam da sua aparência em algumas das imagens, mas que valorizaram a experiência de fazê-las com Lee, cujo processo é criativo e colaborativo. Nancy, que tem oitenta anos, disse: “Eu encolho-me quando olho para as imagens, mas sei que quando tiver noventa direi: 'Ooh, olha como eu estava linda!'” A sua sobrinha neta Maine, que posou com ela, é estudante de fotografia. Maine referiu que a imagem de Lee a deixa feliz porque nela, a sua tia-avó e ela, são tão parecidas. “É como me ver daqui a sessenta anos e, de algum modo, adoro isso”, afirmou. “Acho que a Nancy é linda.” Lee planeia fotografar o par todos os anos.
Por José Luís Vieira, em 21-11-2021
O artigo original de Margaret Talbot está disponível, juntamente com algumas das imagens de Jocelyn Lee, em:
https://www.newyorker.com/culture/photo-booth/jocelyn-lees-older-women-in-the-nude?
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