Os problemas na desmistificação e crescimento do Naturismo - Artigos II - Associação Pensamentos ao Vento

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Os problemas na desmistificação e crescimento do Naturismo
A maioria dos naturistas sabe que existem diversos problemas e dificilmente alguém poderá dizer o contrário. Não se vive, nem nunca se viveu, propriamente uma “era dourada” no Naturismo, pelo menos em Portugal. No entanto, reconhecer a existência de problemas e elencá-los será um passo importante na direção correta para os resolver.

Apesar dos problemas existentes, podemos também referir algumas mudanças sociais que poderão ser aproveitadas na promoção do Naturismo visando a sua desmistificação, bem como ajudar a solucionar os atuais problemas. Os media tradicionais, como a televisão e a impressa escrita, por exemplo, pelo facto de terem de se adaptar às novas realidades, para não correrem o risco de vir a desaparecer, ao adotarem novos paradigmas, estarão a abrir caminho para novos conteúdos ao público em geral. Infelizmente, uma das maiores redes sociais, como o facebook, continua a desempenhar o mesmo papel retrógrado, pelo menos no que à nudez diz respeito. A rápida evolução dos serviços disponíveis na Internet é também um excelente veículo para a criação de novos canais de comunicação entre naturistas, bem como para promover o Naturismo na restante sociedade.
Dado que os jovens tendem a produzir alterações sociais ao nível dos valores, nomeadamente em relação às minorias que anteriormente eram desfavorecidas, como por exemplo a comunidade homossexual, é imperativo que o Naturismo chegue aos mais jovens para que se produzam alterações de atitude face à nudez. O mesmo é válido para o esbatimento dos tabus acerca de várias coisas que teimam em manter uma conotação sexual, como a simples nudez.
Existe também uma preocupação crescente para com a saúde e a sustentabilidade do meio ambiente numa significativa parte da população. Isto direciona-nos para uma maior identificação com o mundo natural e tem-se vindo a assistir a um maior interesse em alimentação “natural”, tratamentos “naturais” e estilos de vida “naturais”. Tudo temas de eleição no estilo de vida naturista e, ao que parece, estar despido é mais “natural” do que estar vestido.
São apenas quatro ou cinco pontos, pois é complicado avaliar as "tendências" à medida que elas ocorrem, uma vez que a direção final só se torna percetível em retrospetiva. No entanto, é útil não esquecer tais pontos uma vez que diversos problemas relacionados com o Naturismo resultam de uma falha em tirar vantagem das tendências que se vão manifestando, como, por exemplo, a mudança de atitude que confere aos mais novos uma mente mais aberta.

Apesar das mudanças, também é verdade que quanto mais as coisas mudam, mais elas ficam na mesma. Poderemos comparar os problemas que se enfrentam em Portugal com os que ocorreram na Alemanha no início do século XX. Mesmo o facto de as sociedades modernas evoluírem de forma positiva, torna as dificuldades do Naturismo em Portugal ainda mais intrigantes.
Na Alemanha, em 1906, Richard Ungewitter publicou o livro “A Nudez” (Die Nacktheit). Apesar das ideias impressas não serem, na sua maioria, da sua autoria, o livro ostentava muitos dos princípios da nudez social não-sexual que ainda hoje prevalecem. Foi uma obra bastante popular e que rendeu alguns lucros a Ungewitter. Infelizmente, as autoridades consideraram o livro como escandaloso e pornográfico e o autor teve de despender a maior parte dos seus lucros com a defesa da sua publicação em tribunal. Felizmente que os nossos problemas atuais não são tão complicados; pelo menos no que à escrita sobre o Naturismo diz respeito.

Os problemas que o Naturismo atualmente enfrenta podem ser divididos em seis categorias:
1.    A atitude pública em relação à nudez e o entendimento da nudez social:
    • A maioria das pessoas possui opinião negativa acerca da nudez. Consideram-na vergonhosa, embaraçosa, privada, pouco saudável para a mente e pouco higiénica, prejudicial para as crianças e por aí fora;
    • A maioria das pessoas não consegue separar a nudez da sexualidade;
    • A maioria das pessoas não consegue perceber que os naturistas retiram prazer não-sexual do facto de estarem despidos;
    • A maioria das pessoas desconhece os diversos benefícios que se podem obter com o naturismo, tal como o relaxamento e a redução do stresse, aumento da autoestima, aceitação do próprio corpo, sensação de comunidade com outras pessoas agradáveis e de mente aberta, sensação de maior proximidade com a Natureza, etc.;
    • A maioria das pessoas desconhece que as atividades naturistas são atividades comuns e não-sexuais em que a única diferença reside no facto de não se usar vestuário.
2.    Medos associados à nudez por falta de informação:
    • Uma boa parte dos homens pensa que vai ter uma ereção e passar uma vergonha. Na realidade não vai, não é a visão do corpo nu que provoca a ereção, é o desejo mental de possuir a outra pessoa que a provoca;
    • Muitas mulheres receiam vir a ser alvo de propostas sexuais ou que a sua segurança está em perigo por estarem nuas. Curiosamente, o risco é menor do que em ambientes não-naturistas;
    • Desaprovação por parte de familiares, amigos, colegas e patrões que os levem a ser ostracizados, gozados ou despedidos. Uma preocupação legítima devido à falta de informação por parte de algumas dessas pessoas;
    • Algumas pessoas acham que o Naturismo é uma atividade ilegal e, como tal, poderão sofrer consequências. Em Portugal não é ilegal e, quando praticado em locais designados como “espaço naturista”, ninguém poderá sequer reclamar;
    • Algumas pessoas acham que a participação de menores nas atividades naturistas as coloca em risco, quando a realidade é precisamente o contrário;
    • Alguns homens e mulheres acham que se vão envolver em atividades sexuais indesejadas ou que podem perder o seu atual relacionamento para outra pessoa. Os naturistas não se envolvem em relações sexuais em espaços naturistas em contexto social e o risco de perder a/o parceira/o para outra pessoa é igual ao de qualquer outra atividade;
    • A comunidade naturista obedece a regras muito estranhas e específicas e a violação não intencional dessas regras leva a constrangimentos e desaprovação. Os naturistas têm a capacidade de distinguir entre o que é propositado e o que é um erro de iniciante.
3.    As organizações naturistas, na sua maioria, falham em:
    • Informar sobre o que realmente é o naturismo;
    • Comunicar com a comunidade não-naturista acerca dos aspetos particulares do naturismo;
    • Proporcionar atrativos para os naturistas em se associarem, pese embora muitas vezes os próprios naturistas não estarem interessados em se associarem;
    • Variar as atividades propostas e facultar novas atividades;
    • Cooperar entre entidades;
    • Captar sócios mais jovens;
    • Demonstrar às mulheres que é mais seguro participar em grupos organizados do que estar sozinha em ambientes não controlados, como numa praia, por exemplo;
    • Demonstrar que o Naturismo é muito mais do que tirar a roupa.
4.    Na própria comunidade naturista:
    • As pessoas tendem a não gostar de se identificar com epítetos, não gostam de se sentir catalogadas e acham que se estariam a autopromover. Na verdade, a esmagadora maioria apenas pretende um agradável dia de praia sem roupas sem qualquer responsabilidade;
    • A maioria não se revê como parte de uma grande comunidade de mente aberta e apenas aprecia a nudez ocasional;
    • O medo, legítimo em alguns casos, das represálias por se afirmarem como naturistas;
    • Há um grande desligamento por parte de alguns naturistas devido à sensação de incapacidade em melhorar a tolerância geral e a aceitação do Naturismo;
    • A própria comunidade está dividida em pequenos grupos que não comunicam entre si, o que contribui fortemente para a aura secretista que envolve o Naturismo;
    • Naturistas reconhecidos e com influência na comunidade tentam denegrir a imagem de outros congéneres para que as suas organizações possam sair beneficiadas.
5.    Qualidade da informação disponível acerca do Naturismo:
    • Apesar de existirem muitos websites que oferecem alguma informação relevante, a sua maioria está incompleta ou não é inteiramente confiável. E, apesar de a informação disponibilizada por algumas entidades ser de confiança, a maior parte deixa ainda muitas questões por responder, em especial em sites e blogues mantidos por meros curiosos que compilam informações sem verificação das fontes ou que se referem a opiniões próprias sem reflexo na maioria;
    • Existem poucas fontes de informação confiáveis, fáceis de encontrar e atualizadas, com indicações sobre os atuais grupos organizados de naturistas e locais onde praticar Naturismo;
    • Os resultados de buscas nos motores de pesquisa para “nudismo” ou “naturismo” devolvem ainda muitas entradas pouco significativas para o tema;
    • A literatura impressa é praticamente inexistente;
    • Muitas das entrevistas realizadas focam-se mais na curiosidade inócua do que em aspetos realmente importantes para o Naturismo, isto quando a mesma não é facciosa e promotora de meras individualidades.
6.    Outros problemas:
    • Poucas coletividades que trabalhem para o Naturismo;
    • A maioria das atividades desenvolvem-se na zona sul do país porque todas as coletividades estão sedeadas no sul do país;
    • A maioria das acomodações encontram-se no litoral e no sul do país;
    • Todas as praias oficializadas para a prática do naturismo encontram-se na zona sul do país;
    • Apesar de não ser caro pertencer a um clube e participar nas atividades, as deslocações para os locais de atividade podem ser um entrave à filiação, pelo menos aos que estão mais distantes desses locais;
    • Censura das imagens de simples nudez com recurso à pixelização, tarjas ou desfocagem, perpetuando a ideia errada que a nudez é ilícita, ofensiva, prejudicial para as crianças, etc.;
    • Falta de informação, ou formação, das autoridades para o facto de a simples nudez não ser punida por lei, incluindo o topless.
A leitura dos problemas acima apontados dificilmente levará alguém a perder tempo a pensar em participar no Naturismo. Na verdade, é normalmente seguro, agradável e sem problemas nas adequadas circunstâncias. Infelizmente, são estes problemas que causam dificuldades significativas para a maioria das pessoas em localizar e participar nas “adequadas circunstâncias”.

A decisão de procurar oportunidades para praticar Naturismo é, evidentemente, algo muito pessoal. Mas o maior obstáculo é precisamente a falta de oportunidade, que é o resultado dos problemas acima elencados. Para que o Naturismo possa crescer exponencialmente é necessário que este esteja verdadeiramente disponível a todos os que o procuram de uma forma confiável para que outros o possam querer também. E tal não irá acontecer se os problemas não forem, na sua maioria, resolvidos.

Com tantos problemas, será razoável esperar soluções para todos eles? Pelo menos para a maioria deles, sim. Até porque alguns desses problemas estão de tal forma interligados que, ao se resolver um, resolveremos outros. Por exemplo, uma boa campanha para desmistificar o Naturismo poderia melhorar a atitude pública generalizada para com o Naturismo. Mas uma boa e eficaz campanha custa muito dinheiro e não terá um retorno financeiro capaz de cobrir diretamente os gastos, como uma campanha publicitária para promover uma marca ou produto.

Portanto, uma campanha viável capaz de promover o Naturismo terá de ser progressiva e inteligente. Com certeza que existirão pessoas inteligentes capazes de conceber uma ideia progressiva e que já sejam, elas próprias, naturistas. Afinal de contas, o Naturismo é atraente para as pessoas capazes de pensar por si mesmas, daquelas que não seguem a multidão e pensam de forma não convencional.

Por José Luís Vieira com base num artigo de Filósofo Naturista (Naturist Philosopher)
em 26/02/2019
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