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Um texto sobre nudez social e imagem corporal - Artigos III - Associação Naturista Pensamentos ao Vento

Sem vergonha do corpo
As organizações naturistas tendem a fazer uma associação entre as atividades naturistas e o incremento da positividade da imagem corporal, o que deverá levar a uma melhoria da autoestima e, consequentemente, a um aumento da satisfação de vida. Na verdade, os efeitos da imagem corporal na autoestima e a relação entre autoestima e satisfação de vida estão bem sustentados pela pesquisa científica. Faltará então fundamentar a relação do Naturismo com a imagem corporal.
Numa fase inicial dos estudos científicos sobre o Naturismo, o enfoque esteve sobre os seus potenciais efeitos negativos nas pessoas. Uma vez que não foi possível suportar cientificamente quaisquer efeitos negativos da nudez social, o enfoque passou para os seus potenciais efeitos positivos.
Os atuais modelos sugerem que uma imagem corporal negativa, quer nas mulheres, quer nos homens, deriva da exposição a, e pressão para conseguir, ideais irrealistas de atratividade. Tais ideais baseiam-se num corpo musculado para os homens e num corpo magro para as mulheres. Esses ideais poderão ser contrariados pela exposição a corpos diferentes destas imagens idealizadas. Por isso, as atividades naturistas, em que é possível observar uma vasta variedade de corpos diferentes desses tais ideais, deverão ser passíveis de neutralizar estes efeitos negativos e promover um padrão mais realista da atração física.
Foi a isso que se propôs Keon West, no seu estudo Nu e sem vergonha: Investigações e aplicações dos efeitos das atividades naturistas na imagem corporal, autoestima e satisfação de vida, no qual participaram, numa primeira fase, 849 pessoas, de diversas idades (16-90), género, etnia e religião. 95% dos participantes indicaram ter participado pelo menos uma vez numa atividade naturista em toda a sua vida, apesar de metade dos participantes indicar ter participado em 17, ou menos, atividades naturistas por ano, sugerindo que estas pessoas não seriam naturistas ativos, mas alguém que participa ocasionalmente em atividades com roupa opcional.
O referido estudo propôs um modelo em que a atividade naturista é associada a uma maior satisfação de vida e em que esta relação é mediada por uma mais positiva imagem corporal e maior autoestima. Os resultados apontaram para que as atividades naturistas influenciaram um incremento da imagem corporal positiva e uma maior satisfação de vida. Uma maior autoestima também apontou para uma maior satisfação de vida.
Pretendeu ainda investigar se “ver e ser visto por outros”, num contexto de nudez social, está associado a uma imagem corporal mais positiva e concluiu que ser visto nu por outros não tem qualquer relação com a positividade da imagem corporal, mas ver outros nus tem uma relação no aumento da positividade da imagem corporal pois veem outros corpos normais e não corpos “perfeitos”.
Uma vez que foi encontrada uma relação positiva entre atividade naturista, imagem corporal, autoestima e satisfação de vida, procedeu-se a um segundo estudo, com 24 participantes (10 dos quais nunca haviam participado em eventos naturistas), no qual se pretendeu verificar se participar num evento naturista teria alguma influência nessa relação. Os resultados obtidos indicam que o evento proporcionou efeitos psicológicos positivos sendo possível interpretar que a nudez social durante o evento incrementou a imagem corporal, autoestima e satisfação de vida. No entanto, dado o reduzido tamanho da amostra e o facto do evento possuir cariz altruístico (em prol de uma causa de conservação da Natureza), é possível que os resultados obtidos possam ter sofrido alguma influência, pelo que se avançou para um terceiro estudo, no qual se removeram estas duas variáveis.
Neste terceiro estudo participaram 100 pessoas que estiveram, durante três horas, num parque aquático sem atividades programadas e sem vestuário. Os resultados voltaram a apontar que participar no evento incrementou a satisfação de vida e que este efeito foi mediado por alterações na imagem corporal e autoestima. Novamente, a interpretação possível é que a nudez social melhore a imagem corporal, a autoestima e a satisfação de vida dos participantes.
O autor do estudo aponta ainda que o Naturismo continua a ser algo pouco convencional para muita gente e é muitas vezes visto como pouco saudável do ponto de vista sexual e psicológico. No entanto, nos últimos anos, toda a investigação tem falhado em encontrar aspetos negativos na prática do Naturismo, quer em adultos, quer em crianças. Talvez por isso, é sem surpresa que se tem vindo a assistir a um aumento de participantes em atividades naturistas e que a investigação tenha mudado o foco dos possíveis aspetos negativos para possíveis aspetos positivos.
Ser-nos-á possível inferir,  com este estudo, que as atividades com nudez social nos proporcionam uma efetiva melhoria na nossa vida, ao nos desligarmos dos estereótipos sociais do corpo perfeito, ao contactarmos diretamente com outras pessoas em vários formatos e ao verificarmos que essa variedade é a normalidade, o que nos leva a deixar de preocupar com o aspeto do nosso corpo. Tal não quer dizer que não cuidemos do corpo; pelo contrário, acabamos por perceber que, apesar de não nos enquadrarmos na perfeição corporal imposta pela sociedade, existe uma efetiva necessidade de cuidarmos de nós sem cair no exagero, que por vezes se pode revelar fatal para a nossa saúde física, mental e social. Sacrifícios alimentares e desportivos passarão a ficar em segundo plano, quando a sua necessidade se caracteriza pela vontade de irmos ao encontro do estereótipo social.
A convivência sem roupas, sem a pressão social do corpo perfeito e sem a sua sexualização, melhora-nos a opinião que temos do nosso corpo, não por qualquer fetiche exibicionista, pois não foi provada qualquer relação no “ser visto”, mas por verificarmos que um corpo é apenas um corpo e pela possibilidade de socializar com pessoas de todos os estratos sociais em pé de igualdade, pois não existem roupas para nos categorizar.
O Naturismo só nos retira personalidade se atribuirmos essa característica ao nosso vestuário. Despimo-nos de roupas, mas não nos despimos de nós; despimo-nos das máscaras sociais, mas não nos despimos da nossa personalidade. Aliás, podemos mesmo marcar ainda mais a nossa personalidade pois, sem roupas, apenas restamos nós próprios.
Artigo de José Luís Vieira, em 11-08-2021
A partir do estudo de Keon West, Nu e sem vergonha: Investigações e aplicações dos efeitos das atividades naturistas na imagem corporal, autoestima e satisfação de vida
Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10902-017-9846-1
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