Para além do canto do Naturismo
Ao reler um livro de Jorge Bucay, dei por mim a comparar um dos contos relatados com a forma como a Pensamentos ao Vento lida com o naturismo.
O texto falava sobre a vida de um madeireiro, de seu nome João Sempernas.
João Sempernas todos os dias pegava no seu machado e trabalhava afincadamente no abate de árvores. No seu tempo livre convivia com os amigos, como qualquer outra pessoa. Com o seu trabalho, conseguiu juntar o suficiente para comprar uma motosserra que o aliviaria de algum esforço físico e ajudaria a ganhar mais dinheiro, o que lhe proporcionaria uma vida mais folgada.Um dia, alertado pelo uivo de um lobo, deixou de prestar a devida atenção ao que estava a fazer e sofreu um brutal acidente com a motosserra. Transportado para o hospital, acabou por perder as pernas, apesar de os médicos tudo terem feito para que fosse possível salvar-lhe os membros mutilados. A partir desse dia passou a fazer jus ao seu nome. João Sempernas perdeu as pernas e teve de começar a usar uma cadeira de rodas. Para alguém que tinha uma vida ativa, foi o colapso e isolou-se do mundo num estado depressivo.Um ano depois, conseguiu superar a depressão e começou a sair, regressando ao convívio com os amigos. No entanto, algo não estava bem. Sentia os amigos mais distantes, apesar de continuar a fazer as mesmas coisas, ainda que com as limitações que o seu estado lhe impunha. Acabou por voltar à depressão e consultou um psicólogo.Inteirado de toda a situação, o especialista explicou-lhe que as pessoas mudam ao longo do tempo, o seu afastamento do grupo de amigos fez com que estes mantivessem a sua atividade da mesma forma como sempre haviam feito, ao passo que João Sempernas estivera afastado durante um ano e regressara diferente e incapacitado; já não podia participar da mesma forma nas atividades do grupo. O psicólogo aconselhou-o a arranjar um grupo de amigos com as mesmas limitações que ele. Mas claro, agora tudo lhe fazia sentido. Motivado pelas palavras do psicólogo, apressou-se para casa e começou a afinar a sua motosserra. Cortando as pernas aos seus amigos, eles passariam a ter as mesmas limitações que ele.
A Pensamentos ao Vento é uma coletividade naturista aberta a todos que nela pretendam participar, independentemente de serem ou não naturistas. A ideia, ao contrário do que se possa pensar, e daquilo que João Sempernas pretendia, não é “obrigar” a que os que não são naturistas, o passem a ser; é juntar, em convívio, pessoas que não se dispam socialmente àquelas que o fazem.
O Naturismo não é um mundo fechado só para os que se dizem naturistas. O Naturismo é o mundo. Se o fecharmos, se o escondermos dos outros, como poderão os outros descobri-lo? Não descobrem. Não podem ver o que é o Naturismo. E quando não podem ver a verdade, inventam. E quando inventam, constroem uma realidade deturpada que coloca o Naturismo no canto onde hoje se encontra, em que quem está de fora acha que naquele canto se passam coisas muito sombrias.
A ideia base é mostrar, aos que não se despem socialmente, que podem conviver em pé de igualdade com aqueles que gostam de se despir socialmente, até porque não nos é possível disfrutar de convívio com nudez social a totalidade do nosso tempo. Queremos que o canto se possa expandir para o resto do mundo. O nosso objetivo não é trazer pessoas para o canto, é tirar o Naturismo do canto.
Não queremos que as pessoas cortem as pernas para se juntarem àqueles que as não têm. Aliás, aqui a analogia deve ser feita ao contrário. Os naturistas é que têm pernas, os que não se despem socialmente é que vivem confinados a uma cadeira de rodas que não os deixa disfrutar da vida e da Natureza no seu pleno.
Na Pensamentos ao Vento queremos que as pessoas possam, a pouco e pouco, recuperar as pernas há muito entorpecidas, quando se sentirem prontas para caminhar por si.
Se com isto conseguirmos que as pessoas que não se despem socialmente descubram que afinal a prática da nudez social é algo de bom e recomendável, e passem a disfrutar do Naturismo no seu pleno, então teremos ganho mais do que aquilo que esperávamos e daremos as boas vindas aos novos naturistas. Mas se apenas saírem da cadeira de rodas com o auxílio de um par de canadianas, também já teremos afastado, mais um pouco, o Naturismo do canto.
Por José Luís Vieira, Presidente da Associação Naturista Pensamentos ao Vento (ANPaV)
07-05-2020
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