Ensaio de sexta-feira
A verdade nua sobre a nudez
Uma grande exposição estreia este fim-de-semana na Galeria de Arte de Nova Gales do Sul – uma coleção de nus da Tate Gallery, em Londres. Há muitos anos que me intriga as complexidades da nudez como fenómeno cultural, por isso esta exposição proporciona-me um momento oportuno para revisitar este interesse de investigação aparentemente peculiar. Mudou alguma coisa na década desde que escrevi um livro sobre nudez? Para que questões maiores o tema aparentemente fútil da nudez aponta hoje?
O meu interesse pela investigação da nudez começou com um paradoxo: às vezes é menos embaraçoso estar nu à frente de um estranho do que estar vestido. Houve um momento preciso em que me apercebi disto. Estava a fazer um tratamento de acupunctura com um médico que não conhecia, que me pediu para me despir. Ele ofereceu-me uma toalha minúscula que só cobria o essencial.
Deitada ali, humilhada e furiosa, mas estranhamente passiva, pensei: "Prefiro estar nua a mal coberta." "Isto é interessante", pensei. "Vou escrever um livro sobre isso."
Na altura, via a nudez como paradoxal, mundana, mas controversa, simultaneamente natural e antinatural. Porque há uma ambiguidade fundamental na natureza da existência humana: os seres humanos originalmente estão nus (por mais breve que seja um momento!) e ainda assim a roupa e/ou a ornamentação corporal é uma inevitabilidade social.
Os humanos podem ser naturalmente nus, mas usamos roupas para definir a nossa espécie, e para nos diferenciarmos uns dos outros. A nudez e a roupa fazem parte de como os grupos dominantes decidem quem está apto a ser considerado totalmente humano, quem deve ser levado a sério e quem deve ser humilhado; que está "menos” vestido (primitivos, selvagens, despudoradas) e que está "mais" vestida (aquelas com demasiados véus a esconder demasiados segredos).
A nudez também é conceptualmente interessante. Uma vez que se pensa nisso, nem é claro o que conta como nudez. Um rosto pode estar nu? Um cotovelo? Um dedo? E talvez o que conta como roupa também não seja simples. Para os exploradores e colonos europeus, os povos aborígenes estavam nus; os seus mantos, adornos cerimoniais e o que usavam na cabeça não contava como roupa. Isto, na sua opinião, despiu os aborígenes de toda a humanidade.
No entanto, a ambivalência dos próprios europeus em matéria de vestuário e civilização também esteve claramente em evidência. Afinal, a própria mitologia do Cristianismo sobre a origem do mundo é uma história em que a roupa funciona como um sinal de pecado e distância da Divindade. A parra de Adão e Eva tem dois gumes, sinalizando tanto o fim de uma idílica existência humana como o nascimento de uma cultura distintamente humana.
Segundo o filósofo Mário Perniola, esta dualidade (nudez como sinal de pecado e degradação versus nudez como sinal de inocência, autenticidade e verdade) impregna a tradição ocidental. Muitos dos nus da exposição Tate podem ser entendidos através de um ou outro destes quadros culturais.
Mas muitas coisas, como migração, globalização, consumismo, liberalização sexual, Internet, redes sociais, mudanças nas identidades de género, transformaram a sociedade australiana nas últimas décadas. Todos eles tiveram um impacto substancial nos valores e costumes individuais e coletivos. Então, certamente, as coisas estão diferentes agora?
Bom, sim e não. Hoje, a nossa relação com a nudez na Austrália é mais uma história da intensificação de lutas anteriores do que de uma mudança radical. A grande quantidade, a ubiquidade, a durabilidade e o alcance global das imagens significa que os pontos problemáticos culturais permanentes (a nudez dos povos indígenas, das mulheres, das crianças e dos adolescentes, por exemplo) continuam a ser objetos de luta. Neste sobrecarregado ambiente mediático, as divisões dentro e entre comunidades são mais visíveis e mais ativamente colocadas em jogo. E todos (primeiros-ministros, papas, artistas e polícias) podem ser arrastados para eles sem aviso prévio.
Nudez e crianças
O primeiro local de luta intensificada nos últimos anos diz respeito a imagens de crianças. A controvérsia de 2008 sobre as imagens de adolescentes nus de Bill Henson na Galeria Rosyln Oxley9 em Sydney indicou o potencial cada vez mais inflamatório de colocar imagens, nudez e infância em proximidade.
A nudez dos modelos de Henson seria interpretada como um símbolo estético de vulnerabilidade, transição ou solidão, ou os seus significados eram inequívoca e inevitavelmente sexuais ou eróticos? E a produção de tais imagens foi um caso de exploração, até mesmo de exploração criminosa?
Tais questões, com as suas duras ramificações jurídicas, bem como psicológicas, eram perigosas e complexas. O discurso político dominante, em que esta controvérsia foi rapidamente mergulhada, não foi um veículo de ambiguidade. O potencial para a nudez significar coisas diferentes não podia ser reconhecido e questões complexas (A nudez é sempre e apenas sexual? Com que idade se deixa de ser criança?) não podiam ser admitidas. Foram emitidos julgamentos claros: "Acho-os absolutamente revoltantes", disse o Primeiro-Ministro Kevin Rudd à Nine Network.
A instável, repleta e debatida natureza da linha divisória entre a infância e a idade adulta continua a ser empurrada para a vanguarda da conversa pública acerca de outra grande mudança: o facto de quase todos terem agora uma câmara ligada a uma rede de distribuição internacional na sua mão ou no bolso na maior parte do tempo.
As ramificações jurídicas e psicológicas da comum prática adolescente de sexting, por exemplo, surgem, compreensivelmente, de forma frequente nos meios de comunicação social. Felizmente, vários estudiosos de meios de comunicação e de género, como Kath Albury, Catharine Lumby, Alan McKee e Kate Crawford, têm trabalhado arduamente para tentar manter esta conversa pública, que tanto interessa aos pais, educadores e adolescente, com alguns entendimentos empíricos sobre o que significa a nudez para aqueles que participam nestas práticas, e quais são algumas das suas consequências sociais e quais os parâmetros éticos na vida dos adolescentes.
Embora a negociação ativa da sexualidade por jovens aponte para novas formas de ética sexual e novas experiências de género, alguns elementos de experiências de nudez de género permanecem depressivamente familiares. Acontecimentos recentes, como a revelação, em agosto deste ano, de que uma rede de adolescentes e jovens adultos publicou mais de 2000 imagens de estudantes australianos sem o seu consentimento, apontam para uma escalada tecnológica de velhas dinâmicas sexuais e sociais.
Este comércio cobarde de imagens de adolescentes e jovens mulheres nuas pode ser entendido através da lente da "homossocialidade", um conceito cunhado em 1985 pela professora de literatura Eve Kosofsky Sedgwick. Este termo alude à estranha e potente mistura de camaradagem e hierarquia que muitas vezes caracteriza as relações entre homens.
O comércio adolescente de imagens de raparigas nuas tem tanto a ver com os jovens que tentam provar-se uns aos outros como com a exploração direta das mulheres. Ele aponta para o papel contínuo desempenhado pelas relações homem-homem na formação das experiências femininas.
As mulheres jovens estão a assumir cada vez mais o controlo e o prazer nas suas próprias imagens sexualizadas, mas as consequências sociais e psicológicas da circulação dessas imagens continuam fortemente marcadas pelo género.
A chamada pornografia de vingança não é nova, mas a chegada dos meios digitais permitiu que assumisse novas formas (por exemplo, "pornografia editada", onde uma imagem da cabeça de uma mulher é cortada e colada no corpo de outra mulher). O alcance e a potencial durabilidade de tais imagens não têm precedentes. O sexo pode ser mais livre, mas a nudez ainda não é democrática.
Cobrindo
E nem estar coberto é garantia de que alguém será bem visto. Estar “demasiado” coberto pode, ao que parece, ainda causar medo, indignação ou afronta. Isto ficou claro em agosto deste ano, quando uma mulher em Nice foi forçada a despir o seu burkini porque não era "uma roupa que respeitasse a boa moral e o secularismo". Uma mulher nas proximidades de Cannes também foi multada por usar demasiada roupa na praia. Estes incidentes ocorreram quase 70 anos depois do primeiro biquíni, uma invenção francesa de 1946, ter escandalizado o mundo.
Só para acrescentar à complexidade, o aniversário do biquíni foi marcado no Ocidente por bastantes comentários comemorativos. E, no entanto, o biquíni também foi feito para apontar para os problemas carnudos das mulheres. Nas palavras de um comentador recente:
O biquíni passou de sinal de libertação das mulheres nos anos 60, um literal despojamento da roupa púdica de uma era conservadora, para uma preocupante demonstração de uma nova opressão: as dietas rígidas e a cirurgia plástica a que cada vez mais mulheres sucumbiram na procura do 'corpo bonito'.
A carne das mulheres pode causar problemas, ao que parece, sempre que e como seja revelado.
As diferentes regras sociais e culturais que regem a nudez masculina e feminina, e as desiguais punições sociais associadas a violar essas regras, continuam.
A amamentação em público continua a atrair críticas de alguns quadrantes, independentemente de uma mama poder estar visivelmente exposta. A simples ideia da mama, combinada, suspeito, com um desgosto recentemente intensificado por tal intimidade incorporada e fluida, pode ser tudo o que é preciso.
Quando uma mãe foi "apanhada" pelas câmaras a amamentar o filho, enquanto esperava nos bastidores que o marido atuasse no The Voice, houve um alvoroço demasiado previsível.
É evidente que alguns comentadores foram menos liberais do que o Papa Francisco, que em 2015 disse a 33 mães na Capela Sistina "não pensar duas vezes" sobre amamentar em público ou na igreja. Este foi um raro momento em que o valor atribuído à nudez feminina nas belas-artes foi, na verdade, estendido à "nudez" real das mulheres.
Território ocupado
Este momento de liberdade foi apenas uma reviravolta naquilo que a teórica da arte Lisa Tickner diz ser o "território ocupado" da nudez feminina. (Na verdade, os nus pintados nos quais estas mulheres alimentavam os seus bebés nem sempre foram bem considerados; 38 panos foram pintados sobre os nus do fresco Juízo Final de Michelangelo na Capela Sistina entre os séculos XVI e XVIII.)
A imagem torna-se ainda mais complicada quando os encontros com a nudez têm dimensões interculturais. Em março deste ano, a blogger indígena Celeste Liddle partilhou uma imagem na sua página pública de Facebook de um grupo de mulheres aborígenes que realizam dança tradicional num protesto contra a intervenção do Território Norte em 2010.
O facebook removeu a publicação, citando os "padrões comunitários". Eram ofensivas as imagens de mulheres em tronco nu numa cerimónia? As mamas adornadas com imagens tradicionais e sagradas eram para serem entendidos como "nus?" O Facebook pensou que sim.
Talvez este já não seja um caso de nudez usada como uma arma para determinar o quão "civilizado" uma prática ou as pessoas possam ser, mas é certamente um bom exemplo da tendência moderna para reduzir os muitos significados, importância e experiências possíveis de nudez a apenas um significado possível: o erótico.
A resposta do facebook a indicar que "alguns públicos dentro da nossa comunidade global podem ser sensíveis a este tipo de conteúdo, especialmente devido à sua origem cultural ou idade" é, à sua maneira, bem verdade. A lei, com a sua dependência de categorias como a ofensa e a afronta, não parece ter muito alcance para ver a nudez de forma mais generosa.
Felizmente, alguns dos significados e experiências mais alegres, frívolos ou libertadores da nudez pública persistem, se bem que de formas altamente circunscritas e regulamentadas. O Sydney Skinny Ocean Swim anual ou a visita ocasional do fotógrafo Spencer Tunick oferecem raras oportunidades para uma alegre nudez pública coletiva.
Isto não agrada a todos, e ofende indubitavelmente os valores, sensibilidades e até preferências estéticas de muitos. Compreendo isto, e respeitar isso faz parte do que significa viver numa nação moderna no século XXI. Mas francamente, prefiro assistir a uma alegria coletiva de corpos em toda a sua diversidade mundana e sem glamour do que assistir a qualquer desfile de lindos corpos nus ou seminus dirigidos ao consumidor. Deem-me alegria em vez de beleza, sempre.
Traduzido e adaptado por José Luís Vieira em 12-11-2022, a partir do artigo de Ruth Barcan, Professora Associada, Estudos de Género e Cultura, Universidade de Sydney disponível em https://theconversation.com/friday-essay-the-naked-truth-on-nudity-66763
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