E se o Naturismo for a chave para se aceitar?
Naturismo, a chave para se aceitar?
Numa altura em que a chegada do verão nos encoraja a
revelar os nossos corpos, imposições e complexos muitas vezes conseguem
(também) conter este ímpeto. Exceto entre os naturistas, que defendem
fervorosamente o positivismo corporal. Então, para vivermos felizes, vamos
viver nus?
E se o naturismo fosse a chave para se aceitar?
A nossa relação com a própria aparência reveste-se com
sentimentos intensos, complexos e às vezes contradições. Entre o desejo de se
amar como se é, o desejo de se libertar de padrões que só se adaptam a uma
porção microscópica da população, e o bombardeamento diário de imagens que
indiretamente nos encorajam a olhar para o nosso corpo como um inimigo, já não
sabemos para onde virar a cabeça. E, muitas vezes, é a nossa autoconfiança que
se desmorona, acusando o golpe de uma pressão social carregada de imposições
impossíveis de seguir.
Quando a estação quente chega, é ainda pior. Porque mais
do que nunca, nas revistas, nas campanhas de marketing, sente-se a falta de
representações fiéis à realidade. E as mesmas silhuetas finas, retocadas ao
extremo, com as mensagens subliminares para emagrecer (que não desapareceram
com a crise de Covid), acabam por fazerem sentir-se culpados todos aqueles que
não se enquadrem neste estereótipo. Ou seja, a maioria do outro lado do ecrã.
Um inquérito para o YouGov, datado de 2020, refere mesmo
que 2 em cada 3 mulheres afirmam ter complexos por parte ou por todo o seu
corpo. Prova das devastações de uma indústria ultraexclusiva da qual, felizmente,
muitos tentam afastar-se. Ativistas feministas, influenciadoras para uma positividade
corporal, promovem uma demanda por mais
diversidade... Nos últimos anos, as iniciativas que se desvinculam das normas
floresceram. A palavra de ordem deste movimento emergente: defender a autoaceitação.
Um termo que congrega tanto que promete uma libertação necessária, interna e
externamente.
Mas entre os atores desta mudança que é menos mencionada,
há também os naturistas. Pessoas que não
teriam esperado até 2020 para celebrar todas as silhuetas. Asseguram também: é
ao deixar cair as roupas que conseguiremos separar-nos do olhar crítico que dirigimos
com demasiada facilidade ao que elas cobrem. E, finalmente, amarmo-nos como nós
somos.
Então, temos que nos despir para melhor existir? Conversámos
com um dos adeptos deste modo de vida, que há muito tem má fama, a fim de
descobrir por que seria realmente um verdadeiro vetor de positividade corporal.
Desencriptação.
Nudez, um estado natural para destigmatizar
Os naturistas ficariam mais satisfeitos com as suas vidas,
é um estudo que o diz. De acordo com Keon West, sociólogo britânico e autor da
publicação em questão (Naked and unashamed. Investigations and applications of the effects of
naturist activities on body image, self-esteem, and life satisfaction, publicado em 2017), é assim mesmo e sem contradições.
A
habituação à nudez (a própria e a dos outros) teria um impacto direto e
positivo na autoestima e na autoimagem e, consequentemente, na qualidade da
nossa vida e no sentimento que associamos a ela.
Para vivermos felizes, vamos viver nus, parecem entoar os
resultados desta pesquisa. E não será a Federação Francesa de Naturismo (FFN)
que dirá o contrário.
Em maio passado, a organização lançou uma exposição
dedicada a "conciliar homens e mulheres franceses com o seu corpo e a sua nudez",
convidando-os a "reapropriar-se dela". Um projeto fotográfico disponível
online, que apresenta 20 pessoas na sua forma mais simples, e deseja libertar
tantas outras.
"O peso dos ditames da sociedade sobre o corpo humano
e, especialmente, sobre o das mulheres tem aumentado ao longo dos anos", constata
a FFN. "Não faltam injunções para cumprir os critérios de beleza e
corpulência... Normas vinculativas, mesmo inatingíveis, impostas pela indústria
da moda, publicidade e pornografia."
Padrões que pede para serem levantados, tal como o tabu em torno do corpo
despido, incentivando a uma nudez "saudável e natural".
Fanny é uma das modelos de um dia que se prestou ao
exercício em frente à lente. Pratica naturismo desde a infância, com a família.
Um costume que, admite, sofre de ideias duras e nocivas preconcebidas. No
entanto, garante, os seus detratores estão completamente errados. "O
naturismo é o respeito das regras de higiene, do ambiente, da reconexão com a
natureza, da autoaceitação, da tolerância, da simplicidade", enumera a
adepta, que insiste: "Não tem nada a ver com sexualidade. Os naturistas
não são nem voyeurs nem exibicionistas." Pela simples razão de que "o
naturista não olha".
Lembra ainda aqueles que se possam ter esquecido:
"Todos nascem nus", lamentando que ainda hoje, "os pais tapam os
olhos dos filhos à medida que passam em frente às nossas bancas. Naturismo não
é uma vergonha, mas uma liberdade. E, acima de tudo, transmite virtudes
emancipatórias.
"A vergonha do corpo é um fenómeno social muito
importante"
Pergunta-se a Fanny: como se sente quando de despoja da
roupa? A resposta fala por si: "Um sentimento de bem-estar, livrar-se dos
pequenos aborrecimentos diários. Desista das barreiras económicas, sociais e
físicas. Seja uno com o seu corpo.
Continua, atacando o flagelo da vergonha do corpo, um
"fenómeno social muito importante". Para ela, é essencial "mudar
mentalidades". "Todos devem ser capazes de mostrar o seu corpo como
ele é, com os seus defeitos, as suas imperfeições, as suas qualidades. As cicatrizes
da idade, da doença e da incapacidade já não devem ser tabu. Todos devem
sentir-se bem consigo mesmos sem serem excluídos pelas suas diferenças. Devemos
restaurar a estima pelos nossos corpos nas suas diferenças, sem preconceitos ou
julgamentos."
Uma benevolência comunicativa, para ler outros
testemunhos. A de Amélie, em particular, que confidenciou nas colunas de Slate
no verão passado ter encontrado neste grupo um efeito restaurativo, até uma
dinâmica feminista: "Antes de me despir, tinha complexos em relação ao meu
peso. A comunidade naturista acolheu-me imediatamente. Nunca me senti julgada e
isso permitiu-me fazer as pazes com o meu corpo." O mesmo acontece com
Julien, que o associa à comunicação social como uma verdadeira
"terapia".
Tantas histórias e argumentos convincentes, que poderiam
dar aos novatos o desejo de começar, com toda a serenidade. Ou, de qualquer
forma, dar um olhar completamente novo, indispensável, numa "arte de
viver", como descreve Fanny, que só tem uma ambição: ouvir-nos dizer
"vamos amar-nos como somos". Inspirador.
Traduzido e adaptado por José Luís Vieira em 20-08-2022, a partir do artigo de Pauline Machado disponível em https://www.terrafemina.com/article/naturisme-et-si-vivre-nu-etait-la-cle-pour-s-accepter_a358635/1
Pauline assume questões de estilo de vida, sexo e social, que ela retrabalha e decifra com um ângulo feminista, injetando o conhecimento dos especialistas e o testemunho de vozes preocupadas. Escreve para Terrafemina há quase três anos.
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