Juventude e Ambiente
Em primeiro lugar, agradecer o convite que nos foi endereçado e cumprimentar a restante mesa e todos os presentes neste “Mesas Redondas” dedicado ao Ambiente e à Juventude.
Esperamos que este evento possa ser uma pedrada no charco pois, apesar de todas as ferramentas que estão ao nosso alcance, e que nos deviam aproximar, o afastamento social e do mundo natural é cada vez mais notório na atual sociedade e qualquer ação orientada para a informação, por mais pequena que possa ser, será sempre um despertar de consciências.
Esta sociedade, cada vez mais focada no sucesso individual, esquece que, como animal social que somos, nada seremos na nossa própria individualidade e, com a globalização, já não devemos tratar apenas do nosso jardim e da nossa família, mas de todo o planeta e de toda a sociedade. A escassez de recursos está a gerar conflitos locais que começaram já a extravasar fronteiras e a incentivar ódios antigos que, se não forem travados, poderão culminar num novo conflito global e, talvez, terminal.
Esta procura desenfreada por recursos para gerar poder e lucro está a destruir a sociedade e o ambiente. A pressão demográfica está a destruir o ambiente natural e mesmo o próprio Ser Humano. A Natureza regenerar-se-á rapidamente sem a presença humana, já o Ser Humano verá a sua existência extremamente condicionada, ou mesmo terminada, sem uma Natureza funcional.
E está nas mãos dos jovens inverterem a tendência atual. Os atuais decisores, na sua esmagadora maioria, continuam focados na criação de riqueza individual. Uma riqueza que permita manter o poder dos poderosos e a ilusória felicidade dos que lhes alimentam o poder e os cofres.
Há uns anos, numa escola no Pragal, durante uma conferência sobre Liberdade, o jornalista Pedro Laranjeira empolgou uma plateia de jovens ao afirmar que está nas suas mãos a mudança do presente com vista à criação de um melhor futuro e que a arma para o fazer estava disponível e ao alcance. Oriundos, na sua maioria de bairros problemáticos, os jovens já se levantavam das cadeiras e gritavam palavras de ordem para pegar em armas e iniciar, por vontade de alguns, já ali uma nova revolução. Mas a arma para poder melhorar o futuro não era uma qualquer pistola ou faca, nem sequer um drone, ou avião, tanque ou carro de combate, porta-aviões ou submarino, nem sequer um míssil. A arma, a arma era a caneta. A caneta que gera informação sendo preciso levar essa informação às pessoas, aos decisores e, também, tornarem-se eles próprios nos decisores e usarem a caneta para criarem novas leis que permitam pensar um futuro sustentável e harmonioso.
Ora, podem estar a questionar-se sobre o que raio tem o Naturismo a ver com isto para chamarem a associação que represento para este fórum. Poderíamos seguir Naturismo > Natural > Natureza, mas não. Ou pelo menos, não só.
O Naturismo tem por base o respeito. De uma forma sucinta, o Naturismo é o respeito por nós próprios, pelos outros e pelo meio ambiente. Perante isto, a questão da nudez pode parecer secundária, ou nem sequer se colocar, mas na realidade é a fundação sobre a qual erguemos estes 3 pilares. Ao nos despirmos sem malícia estamos a dizer que nada no meu corpo me oprime, que respeito a minha base material independentemente do formato que ela aparente; gosto de mim como sou, como estou e nada tenho a esconder; dispo-me por mim e não pelo outro. Nada escondendo demonstro o meu respeito pelo outro. Respeito no outro aquilo que respeito em mim; as suas formas, a sua personalidade e todas as suas idiossincrasias. Não olho para o outro como um possível objeto para o meu prazer, não vejo o outro como um rival, mas como alguém com quem posso comunicar, aprender, ensinar, construir. Respeitando-me a mim e ao outro terei forçosamente de respeitar o meio em que nos movemos, a Natureza. Conseguir dela o que me sustenta sem a prejudicar, saber que faço parte dela e que ela não me pertence, apesar de nos pertencemos mutuamente. A Natureza é algo de extremamente complexo, mas perfeita na sua simplicidade. Os movimentos humanos é que têm vindo a quebrar essa simplicidade e o respeito pelo meio ambiente é deixar a Natureza retomar o seu equilíbrio, é saber que a nossa integração faz parte desse equilíbrio e tomamos consciência disto, de forma ampliada, quando o fazemos sem vestuário, sentindo os elementos diretamente em todo o nosso corpo, sem filtros, sem obstáculos.
Cerca de metade dos nossos sócios não se despe socialmente, nem seria fácil levá-los a o fazerem. Digo “seria” e não digo “é” pois esse não é o nosso propósito. O nosso propósito é mostrar que quem pratica Naturismo é uma pessoa normal que se reflete nos 3 pilares do Naturismo. Felizmente, também os que não se despem socialmente o fazem, e é isso que lhes permite integrarem a Associação sem qualquer problema. Respeitamo-nos mutuamente e aprendemos uns com os outros.
E é isto que tentamos passar aos jovens que nos acompanham. O respeito. O respeito por nós próprios, pelos outros e pelo meio ambiente. O diálogo aberto; aprender e ensinar. Estudar, informar-se, pegar na caneta e lutar. Lutar pelo seu futuro num mundo sustentável para que nele se possam sustentar.
São os jovens o meio para podermos ter futuro e para podermos ter futuro é necessário que se respeitem a si próprios e esse respeito passa definitivamente por também respeitar os outros e o meio ambiente.
Quando olho para as recentes ações pelo ambiente de alguns jovens, não vejo esse respeito. Pelo contrário. Não se estão a respeitar a si próprios, não estão a respeitar os outros, nem as instituições, nem sequer o ambiente. São apenas uma pedra lançada ao lago da sociedade refletindo apenas aquilo em que a sociedade se transformou, uma sociedade egoísta que não olha a meios para alcançar os seus propósitos. Preferimos que sejam semente. Semente que lançada à terra possa crescer, fortalecer-se, florescer e frutificar para que as suas sementes possam ser plantadas e seguir o seu ciclo.
É necessário romper com o passado que nos direcionou para a decadência social e ambiental, e a chave está na mão dos jovens, mas precisamos que os jovens olhem para o passado para nele aprenderem com as derrotas e com as vitórias, com o que deu errado e com o que deu certo. Sem passado não sabemos de onde vimos e sem saber de onde vimos dificilmente poderemos saber para onde nos dirigimos. Esquecer o passado pode levar-nos a cometer, ou deixar cometer, os erros do passado.
Definitivamente, a juventude é o futuro, mas só terá futuro se ganhar consciência que o Ser Humano é parte integrante da Natureza, e para isso precisamos que os jovens do futuro sejam informados e informem, alunos e professores da e na sociedade, e que se respeitem e saibam respeitar, tudo e todos.
Intervenção do Presidente da Direção, José Luís Vieira, no evento "Mesas Redondas" da Associação das Coletividades do Concelho de Loures, a 22 de outubro de 2023
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