Uma onda de calor é o momento perfeito para redescobrir as alegrias de estar nu
Não precisamos ter vergonha dos nossos corpos, por baixo da roupa somos todos iguais
Por Alice O’Keeffe
Até há bem pouco tempo, antes queria roer o meu próprio braço do que tirar a roupa em público. Em parte porque sou pálida, tive dois filhos e a minha barriga não se assemelha a uma tábua de lavar roupa, mas principalmente porque sou britânica. A nudez pública surge tão naturalmente para mim quanto permitir que alguém me passe numa fila.
Mas, num festival, há alguns meses, encontrei-me numa sauna lotada, nua como no dia em que nasci. O espaço era pequeno, do tamanho de um abrigo de jardim, e havia pelo menos outros 20 homens e mulheres, todos tão nus quanto eu. Quando fiquei muito quente, saí a correr para fora e saltei para um ribeiro, onde mais pessoas nuas faziam o mesmo. E foi glorioso. Depois de uma vida inteira de lavagem cerebral através de imagens higienizadas e escovadas de "perfeição", é um tónico encontrar-se rodeado por outras pessoas com caroços, inchaços e cicatrizes, pedaços peludos e pedaços pendurados. Só tive que tentar não olhar.
Estar nu com outras pessoas livra-nos imediatamente de vários níveis de absurdo. É um grande nivelador, pois a roupa é o nosso principal marcador de identidade tribal. Usamos esses marcadores para enviar sinais sobre riqueza, classe ou estatuto profissional e gosto cultural. Sem eles, todos parecem mais diferentes do que se pensava, mas também mais parecidos; torna-se mais difícil descartar as pessoas à primeira vista como "outras".
Também promove uma sensação mais saudável do próprio corpo. Quando tirei a roupa naquele dia no festival, experimentei cerca de cinco minutos de extrema estranheza, um desejo intenso de me cobrir com as mãos. Mas como isso teria parecido ridículo, tive que respirar fundo e andar de cabeça erguida. É impossível sentir o mesmo nível de vergonha sobre os próprios pedaços oscilantes quando se está cercado por outras pessoas nuas, muitas das quais com pedaços a oscilar tanto quanto os nossos. Quando compramos roupas, escolhemos estilos que disfarçam os pedaços do nosso corpo de que não gostamos e, ao fazê-lo, criamos sentimentos de culpa que carregamos sempre connosco. Ficar nu não nos livra da flacidez, é claro, mas livra da sensação de segredo e vergonha.
A experiência fez-me pensar sobre o grau de vergonha corporal que nos é enraizado desde a infância. Lembro-me nitidamente do momento em que percebi que se esperava que escondesse o corpo. Eu estava a trocar de roupa para uma aula de natação na escola primária, e uma das miúdas mais velhas apontou ironicamente para mim. Foi um pequeno incidente, mas deve ter causado uma grande impressão, pois lembro-me claramente 30 anos depois. O meu filho de oito anos passou recentemente pela mesma transição; não tendo qualquer tipo de vergonha corporal quando criança, agora esconde-se cuidadosamente enquanto muda de roupa. Embora parte de mim aceite isso como completamente "normal", também não posso deixar de me sentir triste com isso.
Nos meses que se seguiram ao festival, tornei-me um pouco evangélica em relação à nudez. Tornei-me uma visitante regular da praia nudista de Brighton e, embora ainda seja um pouco tímida, tendo a caminhar até a beira do mar, tirar as roupas e mergulhar; estar nua está gradualmente a tornar-se cada vez mais, bem, natural.
Eu adoraria ver mais pessoas, especialmente mulheres, aproveitando ao máximo esses espaços. Brighton foi o primeiro grande resort a dedicar uma secção da sua orla marítima ao nudismo em 1980, como resultado de uma campanha apaixonada de uma mulher, Eileen Jakes. Mas hoje acho que a grande maioria dos seus frequentadores são homens. As mulheres foram educadas para sentir que desnudar os seus corpos, mesmo num espaço oficialmente sancionado, é um convite ao assédio e à intimidação. Talvez na era da #MeToo isso mude.
Portanto, deixando de lado as muitas razões pelas quais esta onda de calor é uma má notícia, vamos aproveitar as temperaturas incomuns para sacudir um pouco do nosso pudor de clima frio. (Afinal, somos o país que gastou mais de 300.000 libras detendo o caminhante nu [1].) Vão por mim: neste calor, não há nada como mergulhar em água fria sem nada vestido.
[1] Naked rambler no original refere-se a Stephen Gough, ativista britânico, detido e preso por diversas vezes por percorrer o país sem vestuário
Traduzido e adaptado a 29 de maio de 2023 por José Luís Vieira a partir de um artigo original de Alice O’Keeffe (crítica literária e jornalista independente) disponível no site do The Guardian, desde 2018, em https://www.theguardian.com/commentisfree/2018/jul/26/heatwave-perfect-moment-joys-naked-nudism
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