Porque nos vestimos?
A propósito de um anterior artigo publicado, recebemos de Paulo Grave, um dos responsáveis pela Sociedade Portuguesa de Naturalogia, a concordância com o mesmo, acrescentando “A sensação instantânea de bem estar e liberdade que a ausência de roupa nos proporciona na maior parte das situações, é imensa. Estranho é que essa não seja a nossa forma básica de ser e estar e o acrescentar de roupa ser só por questões de necessidade e conforto.”
Esta afirmação vem na linha daquilo que Pedro Laranjeira afirmou no prefácio do livro Ser Natural, de 2011, em que referia “o Naturismo remete-nos para atitudes que observam e enquadram os processos da Natureza, ou seja, tudo o que é natural… não devia, pois, ser uma filosofia de vida mas o normal comportamento do ser humano, inserido na ecologia do meio ambiente que o rodeia.”
Paulo Grave acrescentou ainda “Mas isso para mim é um mistério: Como chegamos a este estado?! De censura absoluta de determinadas partes do corpo...”
De acordo com um estudo sobre o ADN dos piolhos, da Universidade da Flórida, citado em Naturismo, uma filosofia de vida, o ser humano começou a cobrir o corpo há cerca de 170.000 anos, 70.000 anos antes das grandes migrações que nos levaram a cobrir o planeta e também 70.000 anos antes da chegada do último período glaciar que se iniciou há cerca de 100 mil anos e terminou há 12 mil. O facto do ser humano cobrir o corpo pode ser um pouco estranho, dado que o ser humano aparece e desenvolve-se em zonas quentes, não necessitando, aparentemente, de cobrir o corpo por razões climatéricas. De acordo com alguns estudos, existe a indicação de os hominídeos terem perdido a maioria dos pelos corporais há cerca de três milhões de anos, provocada por uma alteração climática. Outras alterações se sucederam e os hominídeos não voltaram a ganhar pelo e sobreviveram, evoluindo sem vestuário.
De acordo com um outro estudo de Bodmer e Pagel, A naked ape would have fewer parasites, devemos ter perdido boa parte dos pelos corporais em virtude da própria evolução, como medida mais eficaz de redução do calor corporal, no clima quente em que o ser humano se desenvolveu, bem como da eliminação de parte dos parasitas corporais, onde menos pelo seria equivalente a menos parasitas, logo, menos doenças associadas a estes. Cobrindo o corpo de forma artificial, recorrendo a fibras vegetais ou peles de animais, o ser humano faria regressar os parasitas que, evolutivamente, com a perda de pelagem, havia eliminado ou, pelo menos, reduzido substancialmente.
Então o que fez o ser humano começar a cobrir o corpo?
Na realidade não temos como saber. Apenas podemos conjeturar acerca do tema.
Por necessidade não faz muito sentido, na medida em que, se necessitássemos de aquecer o corpo, não teríamos perdido os pelos corporais, a não ser que tenhamos começado a cobrir o corpo antes de perder os pelos corporais e estes deixassem de ser necessários, o que não parece ter ocorrido até porque tal comportamento, como vimos anteriormente, se iniciou 70.000 anos antes de uma possível necessidade e se os outros animais se adaptaram, também nós nos teríamos adaptado.
Isoladamente, o ser humano é um animal fraco, mas um grupo de humanos torna-se numa entidade forte. E é assim que as comunidades humanas têm existido e crescido ao longo da sua evolução. Ao funcionar em grupo, como em outras sociedades animais, parece existir a necessidade da prevalência de uma hierarquia. Talvez o uso de vestuário e acessórios tenha começado como uma forma de marcar a sua posição na sociedade.
A marcação da posição na sociedade através do vestuário e acessórios ajuda o ser humano a identificar o seu lugar, e o dos outros, no grupo a que pertence. Um código de vestuário facilita a identificar o grupo de origem e a posição, dentro desse grupo, de determinado indivíduo. Quando falamos em indivíduos de uma ordem religiosa ou militar, ou mesmo de determinado grupo étnico, várias indumentárias características facilmente nos surgem na imaginação e todas elas identificam diretamente o grupo a que determinado indivíduo pertence.
No entanto, se não se pertencesse a determinado grupo caracterizado pelo seu vestuário ou ornamentação corporal, qual a necessidade de cobrir o corpo, ou partes dele? Podemos fazer algumas referências, como por exemplo, a vontade de pertencer a um desses grupos vestidos ou ornamentados. Atualmente, é a moda que nos dita (a alguns, pelo menos) o que devemos ou não vestir. Se não nos vestirmos de acordo com o grupo a que queremos pertencer, o mais certo é sermos criticados pela nossa indumentária e poderemos ver a entrada vedada. Talvez sempre assim tenha sido (?). Também a vontade de determinado grupo subjugar outros grupos e os poder identificar. Escravidão, subjugação de grupos étnicos, e muitas outras situações, que ao longo da nossa história têm ocorrido. A vontade de marcar para segregar determinados grupos étnicos tem ocorrido desde sempre, quer com marcas no próprio corpo, quer com acessórios, vestuário, símbolos, etc.
Por outro lado, se existe um grupo que considera não ser necessário o uso de qualquer peça de roupa, sem ser por necessidade e conforto, pois a naturalidade do ser humano é a ausência de vestuário, como Paulo Grave e Pedro Laranjeira referiram, porque não pode esse grupo exercer da sua liberdade e viver livremente como grupo sem qualquer peça de vestuário? Porque não o podemos fazer de uma forma ampla na sociedade? Porque alguém considerou ser impróprio, imoral, um apelo à atividade sexual, etc. E quando começámos a considerar impróprias e imorais determinadas partes do corpo e as começámos a cobrir?
Esta é a pergunta que Paulo colocou. Também não sabemos responder, mas podemos, mais uma vez, conjeturar e para isso recorreremos à moral.
A moral é um conjunto de preceitos sociais que nos são impostos pelas elites e “tacitamente” aceites pelos restantes elementos e à qual dificilmente podemos ser alheios, pelo menos se não quisermos ser ostracizados. Mas não é estática, ela é modelada ao longo dos anos pelos preceitos que se vão perdendo ou adicionando, de uma forma lenta ou abruptamente impostos. Historicamente, parece que a questão da nudez como algo imoral surge há menos de dois mil anos. Vivendo num mundo praticamente dominado pela religião católica, os “construtores da moral” do mundo ocidental entenderam que a nudez estava intimamente ligada à sexualidade, talvez porque, para a religião dominante nos últimos (quase) vinte séculos, o controlo da sexualidade seja uma das formas de controlar a sociedade. Talvez porque esteja proibida a sexualidade aos seus pregadores e a visão de um corpo despido poderia levar ao desejo de possuir o corpo alheio. Longe da vista, longe do coração e, se a tentação estiver oculta, o tentado poderá desviar a sua atenção dos ditos prazeres terrenos. O naturismo não nega a sexualidade, nega o corpo despido como símbolo de uma qualquer expressão de sexualidade ou anúncio de disponibilidade para atos sexuais.
É com a questão moral que me é possível conceber a atual negação da simplicidade do corpo e a sua ocultação com o vestuário, não como uma necessidade, mas como uma forma de subjugação das massas à vontade das elites.
A moral, tal como George Gusdorf nos ensinou, assiste ao nascimento do homem. É-nos difícil escapar à moralidade fabricada pelas elites e por elas imposta. A grande dificuldade do Naturismo é fugir dessa moralidade e desmistificar a nudez do corpo como algo simples e não problemático.
Como Rainer Maria Rilke referiu “O homem difere dos animais: está em desequilíbrio no universo”. O Naturismo tenta, ao nos despojar do vestuário enquanto uma das particularidades que nos fazem diferenciar dos restantes animais, aproximar-nos do equilíbrio com o universo.
Por José Luís Vieira, Presidente da Associação Naturista Pensamentos ao Vento (ANPaV)
08-05-2020
Outros artigos



