A águia e a galinha - Artigos II - Associação Pensamentos ao Vento

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A liberdade do Naturismo e a prisão da Sociedade
Hoje li um texto que me recordou um artigo que escrevi em junho de 2019 e que fazia a analogia entre um elefante preso a uma estaca e opressão das roupas que a sociedade nos impõe.
Trata-se de um conto que consta no site Emoções à flor da mente, faz parte do livro “99 Histórias de Sabedoria”, de António Estanqueiro, da Editorial Presença, que nos relata a história de uma águia que pensava ser galinha e que aqui transcrevo:
Um agricultor encontrou nas montanhas um ovo de águia. Levou-o para casa e colocou-o junto de outros ovos que estavam a ser chocados por uma galinha.
Logo que a águia e os pintainhos nasceram, o agricultor começou a tratar das aves sem qualquer distinção. Sempre que a pequena águia tentava levantar voo, era reprimida pelo agricultor. Chegou a ser amarrada para não voar.
Enquanto crescia, a águia aprendeu a pensar e a comportar-se como uma galinha. Esgravatava a terra para procurar comida. Cacarejava. Sacudia as asas e voava apenas alguns metros.
Passou o tempo. A águia cresceu e habituou-se à vida limitada das galinhas no quintal do agricultor. Aceitou como natural a sua incapacidade de voar.
Um dia, olhou para o céu e teve uma visão magnífica. Viu um pássaro majestoso a voar livremente, num estilo de voo muito elegante, como se não precisasse de fazer esforço. Então perguntou à galinha mais velha:
– Que pássaro é aquele?
– É uma águia, a rainha das aves.
– Podemos voar como essa águia?
– Nem penses nisso. Tu e eu somos diferentes da águia. Somos galinhas. Ela pertence aos céus, nós pertencemos à terra.
Ao lado das galinhas a águia olhava para o céu com inveja. Nunca acreditou que podia voar em liberdade como as outras águias. Domesticada viveu e morreu a pensar que era uma galinha.
Após alguma investigação sobre as origens deste conto, com alguns a referir ser de autor desconhecido, encontrei aquilo que me parece ser a origem, mas com a substancial diferença de que no final a águia voa de regresso à sua condição natural.
Leonardo Boff, no trabalho A Águia e a Galinha – Uma metáfora da condição humana, atribui a autoria do conto a James Aggrey, político e educador popular, natural do Gana que, em meados de 1925, participava numa reunião de lideranças populares na qual se discutiam os caminhos da libertação do Gana do domínio colonial inglês.
Alguns queriam o caminho armado. Outros, o caminho da organização política do povo, caminho que efetivamente triunfou sob a liderança de Kwame N'Krumah. Outros se conformavam com a colonização à qual toda a África estava submetida. E havia também aqueles que se deixavam seduzir pela retórica dos ingleses. Eram favoráveis à presença inglesa como forma de modernização e de inserção no grande mundo tido como civilizado e moderno.
James Aggrey, como fino educador, acompanhava atentamente cada intervenção. Num dado momento, porém, viu que líderes importantes apoiavam a causa inglesa. Faziam letra morta de toda a história passada e renunciavam aos sonhos de libertação. Ergueu então a mão e pediu a palavra. Com grande calma, própria de um sábio, e com certa solenidade, contou a seguinte história:

"Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu apoderar-se de uma cria de águia. Colocou-a no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Volvidos cinco anos, este homem recebeu na sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
– Esse pássaro ali não é uma galinha. É uma águia.
– De facto – disse o camponês. É uma águia. Mas eu a criei como galinha. Ela já não é uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de envergadura.
– Não – retorquiu o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
– Não, não – insistiu o camponês. Ela converteu-se em galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista pegou na águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
– Já que de facto és uma águia, já que pertences ao céu e não à terra, então abre as asas e voa!
A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, esgravatando a terra à procura de grãos. E saltou para junto delas.
O camponês comentou:
– Eu disse-lhe, ela transformou-se numa simples galinha!
– Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia ao telhado da casa. Sussurrou-lhe:
– Águia, já que és uma águia, abre as asas e voa!
Mas quando a águia viu lá em baixo as galinhas, esgravatando a terra, saltou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
– Eu disse, ela transformou-se em galinha!
– Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã farei com que voe.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram-se bem cedo. Pegaram na águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
– Águia, já que és uma águia, já que pertences ao céu e não à terra, abre as asas e voa!
A águia olhou em redor. Tremia como se experimentasse uma nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu as suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou... voou... até se confundir com o azul do firmamento... "
E Aggrey terminou conclamando:
– Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos.
Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos lançarem aos pés para esgravatar.
Tal como no artigo sobre o elefante preso à estaca, também, em ambas as versões, a águia aprendeu a ser galinha e assim viveu. Se não tentar voar nunca poderá descobrir que possui essa capacidade.
No Naturismo passa-se o mesmo. Só através da curiosidade em experimentar e da disposição em dar esse passo se pode realmente saber se somos ou não capazes de estar despidos perante outros.
A sociedade, tal como o agricultor, ensina-nos a usar vestuário socialmente, que não é positivo estar despido perante os outros e, muitas das vezes, até dizem ser errado estarmos despidos diante de nós próprios, que a nudez é algo negativo e prejudicial.
O trabalho da Associação Naturista Pensamentos ao Vento passa um pouco pela figura do naturalista que tenta fazer com que a águia voe. Tenta-se mostrar aos que receiam abrir as asas e lançar-se no desconhecido do vazio que essa é a sua condição natural, que sempre puderam voar mas que a sociedade lhes negou a liberdade, condenando-os à prisão dos sentidos nas roupas.
Aqueles que já se despem socialmente são as águias que voam lá no alto e que, pelo seu exemplo, mostram ser possível não usar roupas socialmente e, por isso mesmo, são também parte essencial da Pensamentos ao Vento. Muitos deles, eu próprio, fomos galinhas que se sentiam presas nas roupas, que as suas asas não podiam apenas limitá-las a uma vida de esgravatar no solo. Ao despir as roupas e abraçar todas as sensações diretamente na pele experienciamos a liberdade de voar livres das grilhetas com que a sociedade nos enclausurou durantes todos os anos que negámos a nós mesmo a liberdade de ser, apenas ser.
A sensação de contrariar a sociedade, no que ao uso do vestuário diz respeito, será muito semelhante ao da águia que pensava ser galinha e de repente se lança no ar descobrindo que afinal voar é a sua condição natural. Creio que foi isso mesmo que experienciei ao dar aquele primeiro mergulho no mar sem qualquer pedaço de tecido a cobrir muito mais que genitais, a servir de amarra à sociedade castradora, a toldar-me os sentidos.
Num conto, a águia morre convencida que é galinha, com inveja das suas semelhantes nos céus. No outro alguém lhe mostra a sua verdadeira condição, que o lugar dela é nos céus. Na vida, podemos optar por dar continuidade à repressão social, juntamente com o medo de dar um passo rumo ao sonho, ou por abraçar a liberdade da nossa condição natural, esquecida, mas que, uma vez alcançada não mais negada.
Tal como em 2010 escrevi ninguém se pode declarar verdadeiramente livre enquanto não mergulhar despido no oceano, pois a sensação de liberdade é tal que efetivamente algo muda em nós, creio que esta história da águia é a perfeita analogia para os que querem experimentar a nudez social e continuam com receios. Somos águias que a sociedade criou como galinhas e se não abrires as asas nunca poderás ser o que realmente és.

E tu? Vais continuar galinha e contentar-te com o esgravatar do solo ou vais ser águia, abrir as asas e voar para o infinito?

Vem descobrir a liberdade do Naturismo!

Por José Luís Vieira, Presidente da Associação Naturista Pensamentos ao Vento (ANPaV)
05-03-2020
Nota: As citações foram alvo de correção e adaptação para o português de Portugal. As versões originais podem ser consultadas através dos endereços:
https://emocoesaflordamente.pt/category/refletir_com_contos/page/2/
http://espacoviverzen.com.br/wp-content/uploads/2017/09/LeonardoBoffAAguiaeaGalinha.pdf
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