Um pequeno grande passo - Artigos II - Associação Pensamentos ao Vento

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Um pequeno grande passo
A  Associação Pensamentos ao Vento é uma coletividade de âmbito naturista que desenvolve a sua atividade nas áreas da cultura, desporto e recreio e que é aberta a pessoas que se despem socialmente e também às que não o fazem. As atividades da Associação são direcionadas para todos; umas com roupa e outras sem roupa. Nada impede um sócio, que não se dispa socialmente, de participar numa atividade com nudez social, bem como nada impede qualquer um de participar nas atividades sem nudez social; até porque ninguém consegue andar 24 horas por dia, 365 dias por ano sem roupas (em Portugal, pelo menos). Os não-sócios, que não se dispam socialmente, só podem participar em atividades com nudez social devidamente acompanhados por um sócio e apenas esporadicamente. Para participar de forma assídua devem se inscrever como sócios ou praticar a nudez social. Como medida de segurança adicional, a Associação Pensamentos ao Vento expulsará qualquer pessoa, que não observe um comportamento adequado, de qualquer evento, quer seja associada ou não. Da mesma forma impedirá a participação de pessoas que, tendo já participado em outras atividades, tenham evidenciado um comportamento considerado como inapropriado.
No passado dia 03 de agosto, realizou-se a V Caminhada Noturna Naturista no Parque Municipal do Cabeço de Montachique. A noite não estava tão agradável como nos anos anteriores, mas isso não impediu que alguns se libertassem de toda a roupa. Nada de novo. A novidade desta edição foi a presença de duas pessoas que não se despem socialmente no jantar e de mais uma na caminhada. As três pessoas em questão são sócios e elementos que participam de forma ativa das atividades desenvolvidas pela Associação e que quiseram participar numa atividade com nudez social. Foi a primeira vez que, em todas as atividades com nudez social da Associação, contámos com a presença de sócios que não se despem socialmente. Não porque a participação fosse vedada, mas apenas porque nunca nenhum associado que não se despisse socialmente demonstrou interesse em participar. Não sabemos o que as levou a participar, se a curiosidade por uma atividade com nudez social, se a vontade de participar num jantar e numa caminhada noturna num parque florestal.
Mas a grande questão que se coloca nesta participação mista numa atividade com nudez social é como se sentiram as pessoas. Tal pode ser considerado sob dois aspetos:
    • Como se sentem aqueles que se despem socialmente perante a presença de outras pessoas que não o fazem;
    • Como se sentem aqueles que não se despem socialmente perante a presença da nudez alheia.
Os primeiros estão acostumados com a presença de pessoas vestidas ao seu redor, porque também usam roupas, porque as praias não são exclusivamente para quem se despe totalmente e porque, por vezes, em atividades com nudez social, alguns dos participantes são mais friorentos e acabam por se cobrir. No entanto, quando o ambiente é naturista, espera-se que quem esteja nessa atividade se dispa socialmente, ainda que, por constrangimentos climatéricos, ambientais ou biológicos estejam cobertos com vestuário. Logo, trata-se de naturistas no meio de outros naturistas. No caso da atividade em questão, tratava-se de pessoas que não se despem socialmente a conviver com outros que se despem socialmente, apesar de o frio da noite fazer com que alguns não se despojassem totalmente do seu vestuário. Pelos relatos e balanços que nos chegaram, os que se despem socialmente não se sentiram incomodados com a presença dos que não o fazem, até porque o comportamento foi similar de ambas as partes e creio que alguns nem se aperceberam que estavam na presença de alguém que não se despia socialmente. Todos estavam ali apenas para participar na atividade, jantar, caminhar e conviver.
Já relativamente aos que não se despem socialmente, a questão muda de figura. Por norma não estão socialmente na presença de pessoas despidas. Pelos relatos que nos chegaram, de início sentiram-se constrangidos, mas a socialização rapidamente os levou a esquecer a pele nua e a focar naquilo que se fazia. Conversar sobre temas completamente banais, comer, caminhar, conviver. Integraram-se perfeitamente no grupo e socializaram abertamente com os que se encontravam mais próximos. E se, durante o jantar, apenas o fizeram com quem estava sentado nas proximidades, já durante a caminhada socializaram com todos os que, num ou noutro momento, os acompanhavam. No geral, gostaram da atividade, demonstraram interesse em repetir e, se não fosse pelo frio que boa parte do grupo sentiu, talvez tivessem dado mais um passo. Mas o mais relevante foi saber que puderam ver ao vivo que afinal as pessoas despidas nada mais fizeram que apreciar a caminhada e a beleza do parque, que estavam ali como qualquer outra pessoa vestida estaria em qualquer outra caminhada num qualquer outro parque florestal, mas mais confiantes e alegres.
Com isto, foi possível desmistificar, a estas três pessoas, que o que se faz numa atividade com nudez social é exatamente igual ao que se faz numa atividade em que os participantes estejam a usar vestuário. Foi possível demonstrar que, dos 3 aos 79 (extremidades das idades presentes, 3 gerações), e não estando frio, a roupa é apenas um acessório facilmente descartável. Esperamos que estas três pessoas passem a palavra a outras que não se despem socialmente e que outras venham a participar nas nossas atividades com nudez social.
Não  se pretende povoar as nossas atividades em ambiente naturista com pessoas que não se dispam socialmente. Pretendemos desmistificar a nudez social a todas as pessoas que ainda possam ter dúvidas sobre a normalidade das atividades desenvolvidas, que quem lá está vai para socializar e que o facto de estar sem qualquer peça de vestuário não faz dessa pessoa um tarado. Esperamos também que essas mesmas pessoas possam vir a descobrir, ao seu ritmo, a sensação de liberdade que se sente ao nos desenvencilharmos da prisão social do vestuário.
Ao final de seis anos e meio de atividade, e sem forçar quem quer que seja, um dos principais objetivos subadjacentes à criação da Associação Pensamentos ao Vento está em pleno desenvolvimento, ou pelo menos deu-se finalmente início ao processo de desmistificação do naturismo na pele de quem não se despe socialmente, sem o peso da incitação à nudez para participar nas nossas atividades. Pois se para os que (já) se despem socialmente é fácil tirar a roupa e participar numa atividade social de lazer, para os que (ainda) não se despem socialmente é um grande passo mental e social participar numa atividade do género, e um ainda maior será tirar a roupa. O primeiro passo está dado, pelo menos para três pessoas.
Um agradecimento especial ao nosso associado António Vasco Silva, pelo empenho e valorização da V Caminhada Noturna Naturista, e não só.

José Luís Vieira, Presidente da Direção da Associação Pensamentos ao Vento
09-08-2019
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