Uma visão sobre o Naturismo
Naturismo
Para mim o naturismo representa um estilo de vida, o mais possível próximo, em contacto e respeito com a natureza, obtendo dessa forma benefícios para a minha saúde e para o planeta.
Incluí por isso práticas desde a alimentação, à forma como tento manter a minha saúde, encarando os sinais que o meu corpo me envia (dor) como sinais de alerta para algo que não está bem e encontrando formas naturais de recuperar o equilíbrio. Isto é uma procura constante, um desafio que se me coloca diariamente.
O que considero ser a base de tudo isto, é o nudismo, a possibilidade de não usar roupa se esta não for absolutamente necessária por questões de conforto e saúde. Libertando o corpo das tensões que a roupa provoca, sinto instantaneamente o bem-estar. É também aceitar-me instantaneamente, tal como sou (e aceitar os outros, quando praticado em contexto social) e isso traz-me benefícios psíquicos/psicológicos imediatos. É também receber a vitamina D que tanta falta nos faz e que só obtemos/fixamos, quando nos expomos ao sol. É ativar um órgão que é a pele, que nos provoca tantas sensações boas. E isto faz-me muito bem e é para mim um aspeto essencial do naturismo, a possibilidade de estar nu.
Como sabemos, no mundo, a nudez tem tanto de natural, como de disruptivo:
- É natural - para andarmos vestidos, temos de acrescentar coisas artificiais (roupa) ao nosso corpo. Estar nu é o natural.
- É disruptivo - ninguém anda nu na rua! No planeta inteiro! A propósito, este é um facto estranho, não sei como chegamos a este ponto. Deve haver explicações para isto, na antropologia, na teologia ou coisa assim. Não é para mim claro, a razão de isto ser assim!
Então, no meu dia-a-dia, não estando demasiado frio, havendo sol, seria para mim normal sair nu para a rua e usufruir dessa sensação imediata de bem-estar e de contacto com a natureza.
Sabemos o que iria acontecer a seguir. Não demoraria muito tempo até estar numa esquadra de polícia a prestar declarações. Isto é algo muito violento! Mas é a realidade.
E aí é que entra o movimento associativo ligado ao naturismo. No mundo ideal, não existiria. Eu sairia nu à rua, quando me apetecesse. Ia aonde quisesse e fazia o que me apetecesse, nu. Mas considerando que vivemos em sociedade com outras pessoas e os meus atos podem constringir outras pessoas, o movimento associativo é o elemento que faz esta mediação, procurando por um lado desmistificar e clarificar o que é o nudismo perante os outros cidadãos e por outro garantir que existe um enquadramento legal em determinados locais, para que possamos andar nus, pelo menos nesses locais.
Sobre o movimento associativo nudista
Num contexto de intolerância à escala planetária e claro, também em Portugal, à nudez (intolerância no sentido em que não posso saír nú à rua), que bom que é termos entidades (associações) a trabalhar para termos cada vez mais locais e atividades onde possamos estar à nossa vontade.
Um papel que entendo ser fundamental para o movimento associativo: Traçar estritamente e claramente a fronteira entre:
a) ausência de roupa, por questões de bem-estar, saúde, preferência pessoal;
vs
b) ausência de roupa, por exibicionismo, sensualidade, desinibição sexual, sexualidade;
Aqui não há moralismos. Não é julgar, nem condenar, é distinguir. Uma coisa e outra, são diferentes. Ambas têm um ponto comum, que é a nudez.
As motivações e razão de ser para a nudez, são distintas, embora haja pessoas que possam reunir as duas condições e pratiquem a nudez porque se sentem bem, é da sua preferência estar nuas e são desinibidas sexualmente, não se abstendo, por exemplo, de práticas sexuais em locais onde é praticado nudismo.
O nudismo é algo que praticamos sozinhos, em família ou com outras pessoas, é algo que achamos importante para a nossa saúde e bem-estar, da nossa família, dos nossos filhos e por isso incentivamo-los a praticar. Nunca poderemos correr o risco de, motivando os nossos filhos à prática do nudismo, estar confinados a locais onde existem práticas sexuais. Não podendo estar nú na rua, tenho que ir para locais onde existem práticas sexuais e outras atitudes que não têm nada a ver com nudismo.
Essa é por isso uma distinção essencial e para nós, naturistas, a fronteira é claríssima! Não podemos de alguma forma associar-nos a atitudes voyeuristas e na minha opinião até a cuidados estéticos, porque estamos a passar a mensagem que isso é importante, quando não é.
Como fazer com que a) seja aceite universalmente, sem ter nada a ver com b) ?
Acho que este é o grande desafio do movimento naturista. Para que possa movimentar-se no sentido da alteração/melhoramento da lei atual, que ainda confunde nudismo com atentado ao pudor.
No fundo, existem tantos aspetos do naturismo (visão mais abrangente) que já são prática comum ou para lá caminham.
No aspeto da nudez, era bom que conseguíssemos arranjar formas de cada vez mais poder estar presente no dia-a-dia e não só na praia a 40 kms distância (mínimo), no Alentejo ou no resort em Espanha, nas curtas férias.
==> Como é que se consegue trazer uma atividade que até é de pegada ecológica zero (!), a nudez, para o dia-a-dia, para os locais de trabalho e para os espaços públicos e privados que estão perto da nossa casa? Acho que é o desafio para o movimento associativo e para todos os naturistas, que coloca a questão no ponto essencial: O direito que temos a estar nus no nosso dia-a-dia, se nos apetecer.
Estou convencido que, à semelhança de outras coisas que não eram prática comum e generalizada até há algum tempo, mas que passaram a ser atividades de massa e universalmente aceites, também o nudismo o vai ser um dia, falta saber como é que se faz o click, que o despoleta e como podemos contribuir para o fazer.
Por Paulo Grave
09-05-2020
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