Existe uma “necessidade” humana para estar despido? - Artigos II - Associação Pensamentos ao Vento

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Existe uma “necessidade” humana para estar despido?
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Muitos naturistas sentem um desejo significativo de estarem despidos sempre que possível. É quase como se estar despido fosse uma "necessidade" emocional. Vamos analisar se isso pode ser uma necessidade genuína para algumas pessoas.

Vamos começar por falar de "necessidades" em geral. Existem diferentes tipos de necessidades. Dois dos tipos mais óbvios são necessidades físicas e necessidades
emocionais. As necessidades físicas incluem, por exemplo, água, comida e dormir. Se uma pessoa for totalmente privada de um destes tipos de necessidade, morrerá em pouco tempo. Mesmo no caso do sono, a privação prolongada resultará em demência antes de, eventualmente, morrer.

As necessidades emocionais podem ter urgência semelhante, embora a sua privação, de uma forma geral, não seja fatal. Tais necessidades incluem carinho, amor, autoestima e um sentido de valor e competência. O sexo é essencialmente uma necessidade emocional, embora muito urgente para algumas pessoas. No entanto, existem muitas outras pessoas que parecem estar bastante satisfeitas sem a gratificação sexual de outra pessoa. (Todos os outros podem achar isto algo surpreendente.)

Ainda existem outros tipos de necessidades, necessidades de saúde, por exemplo. Esta categoria inclui várias coisas geralmente essenciais para uma ótima saúde, como exercício, algumas vitaminas e minerais essenciais, e uma dieta equilibrada. Tudo o que foi mencionado até agora sugere que existem algumas coisas diferentes que podem ser consideradas "necessidades", e não existe uma forma simples de caracterizar o conceito geral de "necessidade".

Existem várias taxonomias detalhadas de necessidades. Abraham Maslow, por exemplo, classificou originalmente as necessidades em cinco tipos distintos: "fisiológico", "segurança", "amor / pertença", "estima" e "autorrealização". Exemplos de cada um destes tipos são, provavelmente, bastante óbvios, exceto talvez a "autorrealização". Existe uma grande discussão sobre esta classificação na Internet, iremos debruçarmo-nos um pouco sobre esta classificação, mais tarde.

Uma característica deste esquema é que os diferentes tipos de necessidades são classificados numa hierarquia de "mais baixo" para cima. Deste modo, para que a maioria das pessoas possa satisfazer as necessidades num determinado nível, necessita de satisfazer primeiro as necessidades do nível abaixo. Por exemplo, as necessidades "fisiológicas" (que chamamos "físicas"), obviamente, precisam ser atendidas até certo ponto (não necessariamente tão desejável) antes de trabalhar nas outras necessidades. Assim, em algum sentido, as necessidades "mais baixas" são pelo menos tão importantes quanto as "mais altas". Mas é bastante controverso se esta hierarquia é muito rigorosa, especialmente nos níveis superiores. De qualquer forma, esta é uma questão complexa, algo independente da própria classificação.

Nem sequer é claro se algumas necessidades se encaixam bem em apenas um dos níveis de Maslow. Se estar despido é mesmo uma necessidade humana (para algumas pessoas), onde seria adequado encaixá-la? Será uma questão de autoestima? Ligação com os outros ("amor / pertença")? Talvez "autorrealização"?
Uma forma de abordar a questão geral é listar algumas "necessidades" amplamente reconhecidas que estar despido pode ajudar a satisfazer. Aqui está um começo:
  • Ligação a coisas externas a si mesmo, em especial outras pessoas e natureza
  • Capacidade de lidar com o stresse
  • Liberdade (de roupas constritivas, estereótipos sociais, etc.)
  • Consciência do corpo
  • Autoestima (aceitação do corpo)
  • Estimulação sensorial (em especial tátil)
  • Prazer físico e emocional
  • Estados mentais eufóricos, autorrealização

Vamos considerar brevemente cada uma destas “necessidades”.

  • Ligação a coisas externas a si mesmo
O meio em que vivemos tem duas partes principais: outras pessoas e o mundo natural (tanto os outros seres vivos como o mundo inorgânico da matéria e da energia). Os seres humanos têm necessidade de se ligar e sentir um sentimento de pertença em ambas as partes do seu meio. Estar despido com outras pessoas que também estão despidas promove um senso de ligação e pertença de uma forma que dificilmente precisa ser explicada. As pessoas que gostam de estar despidas, muitas das vezes identificam-se como "naturistas", porque a falta de vestuário coloca-as em contato físico direto com os elementos inorgânicos da natureza e também as induz numa sensação de parentesco com os seres vivos não-humanos, que também se encontram despidos.

Mesmo as plantas verdes têm uma necessidade de exposição ao seu ambiente, em especial à luz solar, da qual necessitam para a produção do que é necessário ao seu crescimento e reprodução. O que os seres humanos podem obter da exposição ao seu meio ambiente é igualmente importante à sua maneira, como por exemplo a estimulação sensorial e o prazer físico, a serem discutidos mais tarde.

  • Capacidade de lidar com o stresse
O autor deste artigo escreveu longamente sobre isso em outras publicações acerca dos benefícios da nudez para a saúde e já traduzidas no nosso website. Em suma, a maioria dos benefícios para a saúde estão relacionados com as características de redução do stresse pelo facto das pessoas estarem despidas (pelo menos quando se está acostumado a isso). O stresse tem uma série de efeitos nocivos sobre o corpo, de modo que a mitigação destes a partir da nudez é positivo. Estar despido não é certamente a única forma de reduzir o stresse, mas é eficaz. Isto é típico de uma série de aspetos positivos da nudez: o benefício é real, mas há outras maneiras de obter o mesmo benefício.

  • Liberdade
Estar despido ajuda vários tipos de liberdade. Obviamente, não usar roupas reduz as despesas e o incómodo de adquirir e cuidar da roupa, diretamente proporcional à frequência com que se pode estar despido. Reduz-se o fardo de selecionar, armazenar e lavar roupa, bem como o problema de ter que decidir o que usar. Também não precisa de suportar o desconforto de roupas mal ajustadas ou tecidos irritantes. Provavelmente ainda mais importante, estar despido alivia uma das necessidades de lidar com estereótipos sociais associados a determinados estilos de roupas. Se não usar roupas, não precisa de se preocupar com o que é ou não é "elegante", "moda" ou "popular". O indivíduo consegue ser ele próprio, sem ter que deixar os outros controlarem as suas escolhas.

  • Consciência do corpo
Num sentido muito real, somos os nossos corpos; nem mais, nem menos. A mente e a consciência emergem da atividade no cérebro, que por sua vez é influenciada e afetada pelo que está a acontecer no resto do corpo, incluindo muitos tipos de inputs sensoriais do mundo externo. Então, precisamos de prestar atenção ao que está a acontecer no nosso corpo uma vez que isso afeta fortemente os nossos estados de espírito e as nossas emoções, de forma positiva e negativa. Se as coisas não estiverem bem com o corpo, poderemos sentir-nos mal-humorados, deprimidos ou ficarmos hostis. Por outro lado, se tudo estiver bem com o nosso corpo, os resultados podem variar desde contentamento a euforia. Mas usar roupas encobre os nossos sentidos corporais. A roupa é uma barreira entre o ambiente externo e a nossa pele (o maior órgão do corpo), de tal forma que perdemos as sensações que em grande parte nos compõem.

  • Autoestima, aceitação do corpo
Muitos naturistas enfatizaram a importância da aceitação do corpo: a necessidade de se sentir bem com o próprio corpo sem de importar como ele se possa desviar de um culturalmente ditado "ideal". A roupa pode servir para ocultar falhas visíveis na aparência do corpo, mas não elimina a insatisfação que continua a ser sentida. Estar despido, e especialmente ver outros que também o estão, ajuda a ficar mais à vontade com diversos tipos de corpo, especialmente o próprio. Há outro fator para isso. Tanto na lei quanto na opinião geral, a nudez é normalmente definida pela não cobertura dos órgãos genitais. A razão para isso é que os genitais são normalmente considerados "vergonhosos" e "embaraçosos". Mas esta é uma opinião muito negativa e prejudicial, que parece ter origem em tradições religiosas e/ou culturais. No entanto, os órgãos genitais são uma parte muito importante do corpo de cada um e o descrédito reinante da sua aparência não é compatível com a aceitação total do corpo. Tornar-se confortável com a nudez leva à substituição da vergonha e constrangimento dos órgãos genitais (bem como de outras partes do corpo) pelo respeito e apreciação.

  • Estimulação sensorial (em especial tátil)
Como já observámos, a pele é o maior órgão do corpo, e também o maior órgão sensorial. O segundo maior, o fígado, não está nem perto. Em média, a pele chega a pesar cerca de 16 kg, enquanto o fígado atinge cerca de 1,5 kg. O cérebro é o seguinte com cerca de 1,3 kg. Usar roupas impossibilita o correto funcionamento de boa parte do maior órgão sensorial, tal como usar uma venda nos olhos nos impossibilita de ver. Quanto mais despidos estivermos, mais perceção sensorial do mundo físico nos será possível rececionar. Isto nem sempre é bom, evidentemente, como por exemplo na presença de luz solar forte e direta, baixas temperaturas ou vento forte, especialmente com areia e outras partículas à mistura. Mas a roupa também se torna numa barreira para a sensação de sol moderado, brisas suaves e chuva quente. Nas palavras de Khalil Gibran:
E embora procure nas roupas a liberdade da privacidade, nelas pode encontrar um arnês e uma corrente.
Que pudesse conhecer o sol e o vento com mais do corpo e menos das roupas,
Pois na luz do sol está o sopro da vida e no vento a mão da vida.

Outro aspeto da estimulação tátil é o toque de outras pessoas. Os bebés humanos (e até os jovens macacos, de acordo com o trabalho do psicólogo Harry Harlow) não prosperam sem contato físico com as suas progenitoras. O antropólogo Ashley Montagu, ele próprio naturista (contribuiu com um artigo sobre nudez e pele para a edição de outubro de 1992 da revista da Sociedade Naturista), teve muito a dizer sobre a estimulação tátil em Touching: The Human Significance of the Skin (Tocar: O significado humano da pele). Nesse livro escreveu:
A roupa em grande parte interrompe a experiência de sensações prazerosas da pele. A sensação natural da pele, o contacto do ar, do sol e do vento sobre o corpo podem ser muito prazerosos. ... O movimento naturista quase certamente reflete o desejo de maior liberdade de comunicação através da pele.

  • Prazer físico e emocional
No que diz respeito ao prazer em si, como pode haver muitas dúvidas de que se trata de uma necessidade humana básica? As pessoas que são impedidas de desfrutar se prazer (de uma forma razoavelmente moderada) são propensas à infelicidade, depressão e até mesmo estados neuróticos. Não é por isso que as pessoas condenadas por crimes graves são enviadas para a prisão? A privação da liberdade e do prazer é uma punição severa. E, no entanto, na nossa sociedade, há um estigma associado ao prazer físico livre. O "Hedonismo", para muitos, tem conotações negativas, talvez por causa da mitologia do Jardim do Éden (onde a nudez era a norma), os humanos devem renunciar ao prazer de expiar o "pecado original". H. L. Mencken definiu o puritanismo como "O medo assustador de que alguém, em algum lugar, possa ser feliz". O prazer, incluindo o que deriva de estar nu, é uma necessidade humana como os outros observados aqui. Torna-se de um problema apenas quando a sua busca interfere com a satisfação de outras necessidades, próprias ou de outros.

A necessidade que algumas pessoas sentem para o prazer de estarem despidas deve ser respeitada da mesma forma que outros prazeres mais comuns, como podem ser os que derivam da música, arte, humor, boa comida e interação social. Curiosamente, um livro recente também explicou como algumas pessoas desfrutam da pesquisa em matemática avançada como uma considerável fonte de prazer. Aparentemente, foram não-matemáticos que levantaram leves suspeitas acerca disto como possível justificação para a razão pela qual algumas pessoas escolheram trabalhar em matemática avançada. Seja qual for a fonte, os seres humanos precisam de prazer físico e emocional.

  • Estados mentais eufóricos, autorrealização
A autorrealização é um conceito que aparece em várias teorias psicológicas. De acordo com a Wikipedia:
O termo foi inicialmente introduzido pelo teórico do organismo Kurt Goldstein para o motivo de realizar todo o potencial. Expressar a criatividade, a busca pela iluminação espiritual, a busca do conhecimento e o desejo de dar à sociedade são exemplos de autorrealização.

Abraham Maslow postulou mais tarde que a autorrealização ocupava o nível superior da sua pirâmide de necessidades. A satisfação desta necessidade pode se manifestar de muitas formas, como a realização de tarefas difíceis em muitos campos (ciência, medicina, negócios, etc.); realizações criativas em música, arte ou literatura; e esforços humanitários de sucesso. Os estados mentais eufóricos acompanham realizações significativas num eleito campo de atividade. A magnitude objetiva da conquista não é tão importante quanto a importância subjetiva para o indivíduo. Assim, coisas como correr uma maratona num tempo respeitável, completando a primeira escalada bem-sucedida de uma montanha, oferecer um jantar bem-sucedido que é apreciado pelos convidados, ou comemorando com o filho ou a filha a sua tão cobiçada aceitação numa universidade de prestígio, podem ser ocasiões para estados mentais eufóricos.

Há também muitas oportunidades para estados mentais eufóricos associadas à nudez. Podem não ser tão dramáticos quanto os exemplos anteriores, mas ainda assim culminam em estados mentais eufóricos muito semelhantes. A experiência pode ser tão simples como a primeira grande aventura sem roupas com amigos numa praia de roupas opcional, ou uma primeira vez a posar nu para artistas ou fotógrafos. No entanto, pode ser algo mais dramático, como um cruzeiro sem roupas nas Caraíbas, cheio de diversão, fazer parte de uma "instalação" de Spencer Tunick numa grande cidade ou a servir de tela para uma pintura corporal em Times Square.

Conclusão
Há uma coisa em comum entre a maioria destes exemplos de necessidades humanas que podem envolver nudez. Ou seja: assim como no exemplo do controle do stresse, a nudez não é um fator necessário. Muitas das vezes, existem múltiplas formas de satisfazer cada necessidade. Mas, em cada caso, a nudez pode ser um fator chave na satisfação da necessidade, se uma pessoa estiver disposta e for capaz de fazer uso disso. Se conseguir encontrar uma forma em que estar despida satisfaz qualquer uma destas necessidades (de forma socialmente responsável), então a nudez torna-se, de facto, uma necessidade. É semelhante a, por exemplo, ser um bom músico que pode satisfazer algumas das suas importantes necessidades ao atuar perante uma audiência. Neste caso, o desempenho musical torna-se uma necessidade real. Pode ser necessário fazer algum ou muito esforço para encontrar oportunidades de o fazer. Mas vai-se fazer isso porque se necessita. Digamos que este tipo de necessidade deve ser chamado de necessidade "instrumental" (sem trocadilhos), ao contrário de uma necessidade básica ou fundamental.

Os naturistas deveriam entender cuidadosamente os motivos para considerar a nudez como um genuíno tipo de necessidade, porque, desta forma, estarão mais capacitados para explicar aos outros, de forma exata e convincente, por que são naturistas.

Traduzido e adaptado por José Luís Vieira a partir de https://naturistphilosopher.wordpress.com/2016/06/07/is-there-a-human-need-for-being-naked/
em 30/11/2017
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