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O caminho do Naturismo na primeira pessoa - Artigos III - Associação Naturista Pensamentos ao Vento

O caminho do Naturismo na primeira pessoa
Eu, José Luís Vieira, desde 2010 que me assumo como naturista perante tudo e todos, mas porquê?
Em finais 2009 fui apresentado ao editor José Marques, da Fonte da Palavra, que, tendo tomado conhecimento das minhas capacidades de escrita, bem como do interesse e conhecimento sobre desporto de lazer em duas vertentes, me propôs escrever um livro sobre desporto de lazer que englobasse caminhada e ciclismo. Apesar de terem algo em comum, estes temas deram origem a dois livros com os temas devidamente separados. Após a conclusão destes dois trabalhos, mas antes do seu lançamento, propõe-me novamente a elaboração de novo trabalho. O tema negociado foi o Naturismo, tema sobre o qual tinha alguma curiosidade, sem nunca o ter vivido.
Apesar das muitas horas de pesquisa e páginas de escrita, rapidamente surgiu um livro sobre a temática Naturismo e antes do verão estava pronto para paginação. Como o lançamento dos dois livros sobre desporto havia sido agendado para junho de 2010, entendemos atrasar o lançamento deste último trabalho para o final do ano. Isto deu-me tempo para, nesse verão, saciar a minha curiosidade e experimentar a nudez social.
Aproveitando as férias no Cercal do Alentejo e a proximidade com Porto Covo, numa tarde, eu e a minha mulher, Leonor, unidos há quase 23 anos e prestes a comemorar o 19º aniversário de casamento, chegámos à falésia sobranceira à Praia do Salto e, armados em espreitas, vimos o pequeno areal repleto de gente despida. A pressão social de décadas de “púdica educação católica” fez-se sentir e resolvemos não descer. Voltaríamos no dia seguinte. No dia seguinte o cenário era o mesmo e voltámos a não descer.
Todos os relatos encontrados na pesquisa que fizera para compor o trabalho sobre Naturismo eram testemunhos abonatórios da nudez social. Não conseguira encontrar um que se apresentasse como contraditório ao bem-estar associado à nudez não sexualizada. Se tantos diziam que a nudez social era algo prazeroso, porque nos sentíamos relutantes em descer a falésia até ao areal?
Durante toda a nossa vida ouvíramos dizer que havia certas partes do corpo, nosso e dos outros, que não podiam andar à mostra. Olhar lá para baixo e perceber que os nossos corpos despidos estariam visíveis para toda aquela gente, da mesma forma que os corpos de toda aquela gente estariam visíveis para nós, deixava-nos pouco à vontade e relutantes em descer. Mas ainda não era tempo de desistir.
No sábado de manhã, farrusco, fresco e sem sol, a praia pareceu-nos deserta e descemos. Afinal não estava deserta e já lá estavam 3 pessoas, cada uma no seu canto. Estendemos as toalhas e quando dei conta já a minha parceira estava completamente despida. Tirei os calções e mantivemo-nos sentados na toalha. Nada de estranho, para além do espectável constrangimento por estarem 3 pessoas nuas na praia, metidas na sua vida e sem ligarem a mínima ao casal que acabara de se despir para exibir as inegáveis marcas de um verão com roupa de praia.
O primeiro passo fora dado. O seguinte seria caminhar até ao mar e mergulhar em pelo. Caminhei até à zona de rebentação e um dos indivíduos que por ali andava dirigiu-se-me com um “Bom dia, isto hoje está agradável, apesar do céu nublado.” Pânico. Aquele que eu considerava como o último passo que faria de mim um naturista acabara de ser dado. A interação social. Trocámos mais algumas palavras e o companheiro de praia afastou-se para a vida dele. Entrei na água e mergulhei, talvez mais como tentativa de minimizar o que acabara de acontecer, mas qualquer conclusão que pudesse estar a elaborar acerca do sucedido esfumou-se na sensação de liberdade que percorreu todo o meu ser e me elevou a um patamar que nunca havia experienciado. Nunca pude imaginar que um pedaço de roupa tão pequeno tivesse tanta importância. Todas as barreiras, todas os tabus acerca da nudez, todas as noções de pudor corporal, todas as preocupações, todas as imperfeições foram lavadas naquele primeiro mergulho sem roupa.
Eu, que me julgava livre, tomei noção que ninguém se pode declarar verdadeiramente livre enquanto não mergulhar despido no oceano. Um pássaro que viveu toda a sua vida numa gaiola tem receio da vastidão dos céus. Tal como o pássaro, a vastidão do oceano, do vento e do sol (que entretanto aparecera) na minha pele conferia-me uma sensação de liberdade e ao mesmo tempo de medo desta nova realidade. Era maravilhoso. Posso afirmar que um homem novo saiu da água. Percebi que este era o passo que me faltava para atingir algo que estivera ausente, mas que nunca notara a falta. Acentuou-se a minha noção de pertença a um todo, como um grão de areia no areal, insignificante, mas parte de um todo com significado. Afinal, só precisava disto para me poder afirmar como naturista.
Tive de refazer todo o livro e até alterar o título que de “Naturismo” passou a “Ser Natural”. Somos seres naturais artificializados pela sociedade que nos constringe e o Naturismo liberta; mas também devemos ser naturais, no sentido de sermos nós mesmos, com o respeito por nós próprios. O Naturismo permite-nos alcançar a satisfação com o nosso corpo, ao entendermos que o nosso corpo pode estar a milhas de ser o protótipo idílico da sociedade, mas é o nosso corpo. O Naturismo mostra-nos que devemos despojar-nos das máscaras sociais que toldam as nossas relações e nos impedem de respeitar plenamente o outro. O Naturismo coloca-nos mais perto da Natureza e leva-nos a respeitá-la. Precisava de gritar tudo isto ao mundo e nada melhor que o livro para o fazer.
Mas um livro, em especial o Ser Natural, foi pouco para mostrar isto.
O ingresso numa coletividade naturista foi o passo seguinte para poder socializar com outras pessoas com as mesmas ideias e conhecer melhor o Naturismo. Mas a experiência não correu de forma espectável e acabámos por sair. O conhecimento acumulado em mais de uma década de Associativismo e a vontade de divulgar o Naturismo a todos e não apenas à bolha dos que já o praticam ou que sentem curiosidade em praticar, não nos parecia a melhor forma de mostrar aos outros, através do Associativismo, o que é isto do Naturismo.
Juntámo-nos a mais uns quantos amigos, apresentámos o projeto e avançámos com aquilo a que hoje chamamos de Associação Naturista Pensamentos ao Vento para divulgar o Naturismo, bem como tudo o que representa, a todos quantos nos queiram ouvir.
Mais tarde surge uma dúvida que muitos associam ao Naturismo: é o Naturismo um regresso às origens? Mais umas semanas de investigação e surge um novo livro com esse mesmo título. Quase um construto filosófico sobre o tema. Depois, uma compilação dos dois primeiros livros a assumir o Naturismo como uma filosofia de vida. Desde 2010, depois daquele primeiro mergulho, que fui escrevendo pequenos textos, reflexões e pequenas frases sobre Naturismo e, em 2020, em plena pandemia, resolvi compilar tudo num único trabalho.
Tudo isto porque um dia procurei informação sobre um tema, acerca do qual já sentia alguma curiosidade, e que dadas as sensações que me provocou ao saborear a liberdade de poder exercer o direito à minha nudez, me limpou a mente dos tabus sociais assumidos como pessoais e me fez querer despertar, ou reavivar, nos outros a mesma curiosidade e vontade em experimentar uma liberdade absoluta. Tudo o que fui fazendo foi para dar suporte a esta filosofia de vida e criar as condições para que outros o possam experienciar e descobrir por si mesmos a liberdade de um corpo sem roupas e de uma mente sem tabus acerca da nudez social.
Que tipo de naturista seria eu se não me assumisse como tal perante tudo e todos?
Artigo de opinião por José Luís Vieira em 18-12-2022
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