Não sejas puritan@: os benefícios da nudez social
O simples registo de nudez pode ser caracterizado como obsceno porque sexualiza o sujeito. Mas isto ainda é culpa do observador. É o nosso próprio olhar que torna a nudez sexual, não o ato de estar nu em si mesmo.
Não sejas puritan@: os benefícios da nudez social
Mostrar pele não deve ser um privilégio apenas dos bonitos
A primeira vez que me deparei com nudistas foi durante uma caminhada pelo maior parque de Berlim. Havia dezenas deles, esparramados ao sol, bebendo cerveja e grelhando salsichas em churrasqueiras portáteis. Algumas dessas pessoas tinham idade suficiente para serem meus avós, com seios caídos e rolinhos nas costas, enquanto outros estavam na casa dos vinte, desfilando peitos peludos e tufos de pelos púbicos. Havia até uma família ou duas com filhos. Eu fui a única que virou a cabeça para olhar melhor.
Tinha-me mudado de Toronto para a Alemanha umas semanas antes, na esperança de experimentar um modo de vida diferente. Não demorou muito para aprender que, por aqui, encontrar um nudista é tão comum como avistar um esquilo. Comecei a ver corpos nus despreocupados divertindo-se em lagos e clubes de dança. Até me deparei com um punhado de anúncios de habitação a solicitar interessados em dividir o apartamento “sem roupas”. Ao discutir nudez pública na aula de alemão, a minha professora de vinte e poucos anos mencionou que vai à sauna com os seus colegas de trabalho. Eu mal me sentia à vontade para tirar as calças no ginecologista; de maneira nenhuma eu tentaria “fortalecer a equipa” deixando tudo à mostra numa sauna com as pessoas que costumo ver abotoadas até ao pescoço no escritório. Fiquei igualmente mortificada depois de assistir ao episódio do documentário da CNN de Berlim Sex and Love Around the World, no qual um berlinense de meia-idade diz casualmente que quando a sua namorada conheceu os seus pais eles estavam nus, tal como ela. “É muito estranho”, respondeu o repórter. "Foi na praia", disse ele, encolhendo os ombros. "Foi normal."
Na pequena cidade de Ontário, onde cresci, a nudez é quase sempre um assunto privado. Claro, há uma série de praias de nudismo nos EUA e Canadá, e ambos os países possuem várias sociedades e grupos naturistas para aqueles que preferem socializar sem qualquer peça de roupa. Mas, fora desses cenários, é frequentemente associada à intimidade ou a desconfortáveis consultas médicas. No Canadá, onde a nudez pública é considerada “atentado ao pudor", o ato pode levar uma multa de 5.000 dólares, seis meses de prisão, ou ambos, o que é uma pena, uma vez que os estudos têm demonstrado que passar mais tempo nu tem benefícios psicológicos e físicos para a saúde.
De acordo com uma série de pesquisas realizadas por investigadores da Universidade de Londres, não só aqueles que se dedicam ao naturismo têm níveis de autoestima e satisfação de vida mais elevados do que os seus homólogos vestidos, como também se tornaram ainda mais felizes, uma vez que participam nessas atividades com mais frequência.
Tudo isto me fez pensar, será que eu, uma canadiana anafada com profundos complexos acerca do corpo, seria corajosa o suficiente para me juntar ao pessoal que bebe cerveja e grelha ao sol? Viver numa comunidade pseudo naturista ou tomar parte num encontro e cumprimento parental sem roupa pareceu-me um grande salto para lá da minha zona de conforto, mas dois meses depois da minha nova vida na Alemanha, decidi superar o meu medo.
Estava num lago com a minha prima, que veio visitar-me nas férias de verão. Assegurei-lhe que "isto é o que as pessoas fazem aqui." Um grupo de mulheres perto de nós já tinha removido os seus fatos de banho. Seguimos hesitantemente, atirando-nos para a água com as mãos cruzadas sobre o peito. Ninguém se importava, mas ainda assim senti-me mal, como se estivéssemos a cometer algum crime hediondo contra o pudor. A nossa incursão pelo naturismo durou poucos minutos antes de cambalearmos desajeitadamente de volta ao areal. Assim que chegámos, peguei rapidamente na toalha, para cobrir as minhas marcas de celulite.
Os alemães praticam Freikörperkultur (FKK), ou cultura do corpo livre, há mais de um século. Suspeita-se que as suas origens tenham ligações com o movimento de cura natural do final do século XIX, quando as cidades termais começaram a surgir na Alemanha e no antigo Império Austro-Húngaro. Era aqui que as pessoas se podiam libertar dos constrangimentos dos seus espartilhos e coletes e deixar os seus corpos respirar. Após um longo hiato nudista de anos, durante todo o regime nazi, a FKK regressou na era do pós-guerra, quando se tornou um ato de resistência contra um estado repressivo, especialmente na Alemanha Oriental, e persiste até hoje. Ao longo das muitas fases do movimento, a ideia central manteve-se a mesma: a nudez não tem uma conotação sexual.
Em comparação, o naturismo foi muito mais lento a arrancar no Canadá. Durante a revolução industrial na Europa, quando os trabalhadores das fábricas viviam em cidades sobrelotadas e as áreas urbanas estavam a expandir-se rapidamente, havia mais desejo de espaços para onde as pessoas pudessem escapar para a natureza e passar tempo sem roupas. Por causa da paisagem rural do Canadá e da escassa população, aqueles que queriam mergulhar ou caminhar nus não precisavam de um clube para o fazer. As coisas começaram a mudar após o afluxo de imigrantes, mais especificamente alemães, que se estabeleceram no sul de Ontário após a Segunda Guerra Mundial. "Foi quando o Canadá se tornou muito mais urbanizado e foi também quando muitos clubes nudistas começaram a emergir na periferia das grandes cidades", diz Mary-Ann Shantz, doutorada em Carleton que estudou a história do nudismo social no Canadá. Da mesma forma, o nudismo americano desenvolveu-se em áreas rurais, longe dos olhares de vizinhos e polícias.
Na década de 1950, muitos destes clubes eram geridos por casais alemães e dirigidos para outros europeus, mas à medida que a imigração começou a abrandar, deu-se um aumento de membros nascidos no Canadá. "Tentaram convencer as pessoas de que o nudismo contribuía para fortalecer o casamento heterossexual e que era uma boa forma de criar crianças que se sentissem confortáveis na sua própria pele", diz Shantz. O objetivo, explica, era fazer com que a nudez pública parecesse aceitável. O nudismo foi mantido como uma atividade de lazer, que as famílias podiam fazer em conjunto, e uma forma de cultivar a intimidade emocional entre casais. "Queriam mesmo vender o nudismo como um bem social que iria melhorar as normas sociais e os valores comunitários, e não perturbá-los."
A grande diferença entre o movimento dos clubes do Canadá e o FKK da Alemanha foi que os nudistas canadianos ainda o praticavam atrás de cercas e portas fechadas, principalmente em propriedades privadas. Só no final dos anos 60, quando as praias de nudismo começaram a aparecer em locais como Califórnia e Vancouver, é que o debate começou a mudar para a nudez pública. Mas os nudistas da América do Norte nunca entraram realmente no contexto, explica Shantz, e o crescimento do movimento desvaneceu-se depois dos anos 70. O tema continua a ser controverso, uma vez que, no Canadá e nos EUA, a nudez é muitas vezes vista como sexual.
O investigador teórico dos media, que aborda temas incomuns, Rob Cover, escreve que, "para a cultura pós-moderna contemporânea ocidental, o sexo e a sexualidade tornaram-se motivos relevantes na publicidade, na arte, no entretenimento e noutros quadros, de tal forma que a sexualidade parece ser uma força externa". Para aqueles como eu, que não cresceu num lugar onde a nudez era considerada a norma, ver um corpo nu estaria quase sempre associado ao sexo: cenas num quarto com sessenta segundos em filmes com classificação R [1], anúncios picantes (onde o sexo vende) e figuras parecidas com a Barbie em má pornografia na Internet. A Alemanha não é um refúgio seguro de filmes porcos ou outdoors sensuais, mas a diferença fundamental é que, aqui, pessoas nuas extremamente comuns existem fora da bolha da cultura pop.
O mundo teve um vislumbre disto neste último verão, depois de um banhista alemão nu ter sido fotografado a perseguir um javali selvagem que lhe roubou a mala do portátil. É difícil não rir das imagens: o homem, com a barriga saliente e o cabelo grisalho, parece estar a tentar apelar desesperadamente ao ladrão enquanto os espectadores se sentam de braços cruzados, sorrindo de orelha a orelha. A maioria concordaria que não há nada de erótico nesta cena. No entanto, se tivesse acontecido no Canadá, o homem poderia ter sido acusado de cometer um ato indecente, que o Código Penal do Canadá define como um ato "em qualquer lugar com intenção de insultar ou ofender qualquer pessoa". (As probabilidades são, ele nem sequer pretendia correr nu naquele dia fatídico.) De acordo com o Código Penal do Canadá, um corpo nu é, na maioria dos contextos, automaticamente considerado ofensivo.
Isto provavelmente explica porque me senti tão púdica durante aquele primeiro mergulho sem roupa. Uma vida inteira a dizerem para me encobrir fez-me sentir autoconsciente. E como não poderia? Já é difícil evitar a insegurança em frente de um espelho, quanto mais num parque cheio de estranhos, quando os corpos nus que estamos habituados a ver são todos iguais. A minha cronologia do Instagram, especialmente no verão, está repleta de fotos de mulheres de biquíni que se assemelham a modelos da Sports Illustrated: ou são magras e tonificadas, com abdominais brilhantes e lacunas na coxa, ou curvas em todos os lugares certos. Para este tipo de corpos, aquilo que consideramos sexy ou desejável, a nudez é tolerada. Eu, por outro lado, tenho pedaços moles e estrias, atributos que se espera que permaneçam escondidos.
Apesar dos meus melhores esforços para desseguir as contas dos influenciadores e manter uma vida online que sinta mais próxima da realidade, o Instagram continua a empurrar estas imagens para a minha cronologia e o seu algoritmo ainda favorece a magreza acima de tudo. No ano passado, quando a comediante australiana Celeste Barber publicou uma fotografia a imitar a modelo da Victoria's Secret, Candice Swanepoel, foi rapidamente removida por ir contra as diretrizes comunitárias do Instagram sobre nudez ou atividade sexual, enquanto o original de Swanepoel permaneceu intocável. As suas poses eram quase idênticas, com ambas as mulheres a inclinar a cabeça para o céu e a agarrar a mama direita. A única diferença foi que Barber parece ter alguns tamanhos acima. Da mesma forma, o Instagram ameaçou fechar a conta da fotógrafa Camille Brandon, sobre a positividade do corpo, onde publica imagens de mulheres de tamanho extra nuas, em duas ocasiões distintas. "Nunca verias a Kim Kardashian ameaçada de lhe retirarem a conta", disse à ABC News no ano passado. "Acho que é importante que todos sejam expostos a corpos naturais e normais." Uma vez que diferentes tipos de nudez começam a tornar-se mais tolerados no mundo online, ver corpos reais fora de contextos familiares pode não ser tão perturbador.
Há uma década, uma equipa de investigadores da Universidade de Yale e da Universidade da Califórnia do Norte em Chapel Hill tentou entender melhor como percebemos a nudez. Durante a experiência, os participantes foram convidados a olhar para dois conjuntos de fotos, um com um homem, o outro uma mulher. Cada conjunto continha uma foto de rosto e uma outra de fato de banho PG-13 [2] tirada da cintura para cima. Ao avaliar os rostos dos indivíduos, os participantes do estudo concluíram que ambos tinham aparência de agentes influentes (“agency” - capacidades como autocontrolo, planeamento e moral). No entanto, assim que mais pele foi revelada, a perceção mudou e, de repente, presume-se que os mesmos sujeitos estavam cheios de capacidades relacionadas com a experiência, como a fome e o desejo. Uma análise do estudo concluiu que, "quando vemos uma foto sexualizada de algo, o nosso corpo assume o poder e passamos a ver essa pessoa como uma forma de satisfazer os nossos desejos sexuais… em vez de um ser humano vivo e pensante." Por outras palavras, os norte-americanos foram programados para interpretar automaticamente a pele nua como algo escandaloso, independentemente de ser uma estrela de cinema ou um alemão de meia-idade a correr por aí no seu fato de nascimento.
Esta forma de pensar teve repercussões no mundo real que vão além de incomodar os praticantes de nudismo em áreas privadas da América do Norte. Um casal do Arizona viu-se no meio de uma batalha judicial que durou uma década depois de tentar revelar fotos das suas três filhas (18 meses, quatro e cinco anos) a brincar na banheira. Um funcionário da Walmart assinalou as fotos como pornográficas, o que iniciou uma investigação completa sobre se os pais eram agressores sexuais de crianças. Em 2018, o tribunal decidiu, sem surpresa, que não tinha havido qualquer delito. Fotos como estas provavelmente existem em todos os álbuns de fotos de família, mas este não é um caso isolado, existiram outros semelhantes. Cover argumenta que mesmo agora o simples registo de nudez pode ser caracterizado como obsceno porque sexualiza o sujeito. Mas isto ainda é culpa do observador. É o nosso próprio olhar, escreve ele, que torna a nudez sexual, não o ato de estar nu em si mesmo. "Sugiro que seria produtivo considerar uma revisão completamente nova da sexualidade."
Sexo tem tudo a ver com o contexto, e como Cover sugere, requer uma desassociação com os genitais. Esta ideia não é nova. É sobre esta premissa que foram iniciados movimentos como #FreeTheNipple, que critica a hipocrisia dos homens poderem desfrutar de passeios em tronco nu enquanto as mulheres são sexualizadas e censuradas. Para aquele berlinense oriental de meia-idade que apresentou a namorada aos pais nus, ou para a minha professora de alemão que frequenta a sauna com os seus colegas de trabalho, estes cenários não são sensuais porque as partes do corpo são características que podem ser tão comuns e inofensivas como ter olhos azuis ou cabelos compridos. Se houvesse uma linha de conga ou uma orgia na sauna, seria uma história diferente.
Demorou, mas eventualmente, despir-me em público começou a ser-me tão comum como tirar um casaco quando está muito calor lá fora. Hoje em dia, raramente uso um fato de banho no lago, e o meu código de vestuário preferido na pista de dança é em topless. Para além do turista de olhos arregalados apanhado desprevenido, como eu já fui, a maioria das pessoas não dá importância. E se não se importam com as imperfeições, pelas quais passei a vida obcecada, porque haveria eu de me importar?
Não posso deixar de pensar como seria diferente a minha perspetiva hoje se tivesse crescido a ver mais pessoas comuns com corpos comuns. Na América do Norte, mostrar a pele ainda é um privilégio concedido a pessoas bonitas, e é improvável que as leis mudem tão cedo. Mas, se pudéssemos aprender a estar um pouco mais confortáveis, a olhar para os nossos físicos como apêndices da natureza em vez de objetos concebidos para excitar e ofender, então poderíamos finalmente perceber que todos têm um corpo digno de estar nu.
[1] Restrito, menores de 17 anos necessitam de acompanhamento adulto. Esta classificação indica que o filme contém atividade adulta, linguagem obscena, violência gráfica, consumo de drogas e nudez
[1] Sigla que certifica ser apropriado para todas as idades, mas requer acompanhamento de adultos para menores de 13 anos.
Traduzido e adaptado por José Luís Vieira, em 30/05/2022, a partir de um original de Nicole Schmidt disponível em: https://thewalrus.ca/dont-be-a-prude-the-benefits-of-public-nudity/
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