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O como, o quê e o porquê do naturismo - Artigos III - Associação Naturista Pensamentos ao Vento

O como, o quê e o porquê do naturismo
Sim, existem alguns locais no mundo onde tirar toda a roupa não está restrito a resorts nudistas
“Não sabes como te vais sentir antes de experimentares,” afirma Nick De Corte. “Afinal, nunca viste tanta gente nua num único lugar de uma só vez. Começas por pensar que tudo isso é muito estranho. Começas a questionar-te se te permitiste a participar numa orgia gigante. Mas depois, rapidamente esqueces que estás despido. E começas-te a ligar às pessoas. Sentes-te livre da ideia de te esconderes porque, sabes, não há onde te esconderes quando estás nu.”
De Corte é, com a sua companheira Lins Van Wambeke, um viajante naturista belga que relata as suas experiências no seu blogue Naked Wanderings. Nos seus trinta e poucos anos, Nick vai contra o estereótipo daqueles que escolhem passar a maior parte do seu tempo de lazer em determinadas praias ou resorts sem qualquer peça de vestuário: alemão corpulento nos seus cinquenta e tal anos, bronzeado integral, nu de sandálias no bar. “E parece que todos jogam Petanca,” ri De Corte.
Mas o Naturismo, também conhecido como nudismo (mas, por favor, não o confundam com naturalismo), tem assistido a uma mudança radical na última década. Os eventos naturistas têm florescido em culturas onde nem sequer existiam, como a América do Sul, Ásia, e também em cidades onde, tradicionalmente, não eram encontrados.
“A aceitação do Naturismo tem muito a ver com a cultura local, claro,” diz De Corte, “e é muito recente em certas partes do mundo, mas é isso que lhe está a permitir atrair a atenção de pessoas mais novas, isso e também a sua associação ao ambientalismo. No início, fomos cautelosos e mantivemos o nosso interesse no Naturismo em privado. Apesar de para alguns dos nossos amigos ser uma espécie de piada, a maioria simplesmente não se importa. Alguns até se juntaram a nós.”
De facto, trazer jovens para o Naturismo pode vir a ser crucial para a sua sobrevivência, ou pelo menos para a de muitos eventos em que é mais prontamente adotado. Na Alemanha, estar nu na Natureza (ou FKK, como é designado no berço espiritual do Naturismo, uma vez que foi aqui que o movimento moderno se iniciou durante os finais do Século XIX), viu o número oficial de praticantes federados diminuir para menos de metade nos últimos quarenta anos por ser considerado ultrapassado e excessivamente regulamentado.
De forma semelhante, Nicky Hoffman, da Naturist Society Foundation, nos EUA (onde alguns estados criminalizam a promoção do Naturismo), dá nota de como as gerações mais velhas de naturistas estão, inevitavelmente, a morrer e que trazer jovens para a liderança do movimento é extremamente difícil. Os jovens gostam de experienciar o Naturismo, mas não necessariamente de uma forma organizada. “Entendem como o Naturismo está, aos poucos, a ser normalizado, mas não se pretendem juntar a qualquer organização,” argumenta.
Todavia, as oportunidades para tirar a roupa parecem estar a aumentar. Como De Corte descobriu, pessoalmente, é, neste momento, possível encontrar resorts nudistas nos seis continentes. Ao que parece, as alterações climáticas irão, em breve, transformar a Antártica num local apelativo. Há cerca de 20 anos, considera, os eventos naturistas eram apenas de índole privada. Agora, os eventos públicos, sem roupa, estão em ascensão. A World Naked Bike Ride realizou-se em 70 cidades de 20 países, em parte para protestar contra a utilização do automóvel e a catástrofe climática, mas também na defesa do direito de estar despido.
Em novembro, o artista Spencer Tunick, que organizou cerca de 75 fotos de nudez em larga escala um pouco por todo o mundo, regressou à Austrália para o seu último trabalho numa praia de Queensland, desta feita para a cadeia da moda The Iconic. Maio verá o próximo World Naked Gardening Day. Ele há refeições nudistas, casamentos nudistas, voleibol nudista, entre outros desportos.
“Quando em 2017 organizámos pela primeira vez um evento sem roupas, foi apenas para provar que era possível,” diz Julien Penegry, do Centro de Artes Parisiense Ponte Ephemere, organizador do clube noturno nudista “só calçado” Beautiful Skin, que, graças à sua popularidade, funciona uma vez a cada dois meses, e uma exibição de arte (não acerca de Naturismo) a qual os visitantes são convidados a visitar nus. Curiosamente, das centenas que participaram nestes eventos, a maioria das pessoas retiraram as usas roupas socialmente pela primeira vez.
“Muitas pessoas assumem que é impossível manter uma vida naturista na cidade, que é algo que só se pode fazer por uma ou duas semanas num local ao sol,” acrescenta Penegry. “Mas o Naturismo, para muitos, é uma filosofia de vida que querem abraçar o mais amplamente possível. É acerca de encorajar a ideia de que o Naturismo é, na realidade, muito simples. Não é perigoso. Não é vergonhoso. O problema será mais as outras pessoas que o acham perturbador. Fazem suposições. É como ver alguém descalço e presumir que é um sem-abrigo ao invés de ser alguém que prefere o contacto direto com o chão. Mas os que experimentam tendem a concluir que afinal tiveram uma experiência completamente diferente de tudo o que já haviam feito anteriormente.”
Não é para todos. Naturalmente, a ideia de estar despido na frente dos amigos ou estranhos é matéria de pesadelos para algumas pessoas. Estar despido em público é um dos sonhos de ansiedade mais comummente reportados, psicólogos interpretam isto como o paciente sentir-se envergonhado por algo que as pessoas não sabem acerca de si. Uma resposta a sentimentos de culpa ou inferioridade, ou de serem privados de atenção.
Por outras palavras, desconhecem. Mas dizer que esse “medo” é natural, também não está correto. Afinal, enquanto o vestuário tem muitas utilizações: proteção, identidade, exibição, para nos distinguir das outras espécies, a nudez foi o traje normal no início da história humana e para algumas culturas, a nudez, ou a seminudez, ainda o é.
E, no entanto, a nudez pública é amplamente limitada pela maioria das sociedades ditas “avançadas”, considerada ofensiva ou causadora de algum tipo de incómodo público, e não sem contradições frequentemente sexistas: a campanha “libertem o mamilo” coloca a questão do porquê de ser permitido a um homem desnudar o peito, mas não a uma mulher. Os pais incentivam os filhos a cobrirem-se assim que evidenciam sinais do desenvolvimento corporal característicos da puberdade, transmitindo as suposições negativas conotadas com a nudez e os perigos que lhe estão associados ou a sua natureza antissocial.
Como afirma Bouke de Vries, um filósofo político da Universidade Umea, na Suécia, e autor do artigo “O direito de estar publicamente nu: Uma defesa do Nudismo”, a nudez tornou-se um tabu social. Algo, desde que Adão e Eva se cobriram de vergonha, e foram expulsos do Jardim do Éden, que tem sido especialmente enfatizado pela crença religiosa.
Os estados, argumenta, deveriam reconhecer o direito de ficar nu em público como um direito distinto, em vez de tentar protegê-lo sob os direitos existentes; que deve ser reconhecido pelo bem-estar que proporciona e reconhecido como parte da liberdade de expressão de um indivíduo. Não acredita em restringir o nudismo com o argumento de ofender porque alguns corpos são feios, por exemplo, ou que isso pode levar a um comportamento desviante. Nem, como alguns afirmam, que cause um risco à saúde, os factos simplesmente não sugerem tanto.
“Muito disto está relacionado com a forma como somos socializados. As ideias que temos sobre a nudez são o resultado de décadas de exposição aos media e à publicidade, por exemplo, que costumam estar muito distantes da verdade”, argumenta. “Já nadei nu e isso resume a minha carreira de nudista. E isso foi porque tinha esquecido o meu fato de banho. Mas não deixa de ser estranho que em tantos lugares, num dia quente, eu não possa andar nu se assim o entender. Tal como acontece com outras práticas, a menos que possam ser apresentadas boas razões para a restringir, ela deveria ser permitida. E com o Naturismo essas razões parecem estar ausentes.
Apesar disto, não é assim tão surpreendente que a sociedade tenha uma visão tão distorcida e confusa acerca da nudez. É simultaneamente um símbolo de degradação e de inocência, até mesmo de autenticidade. A Internet, em particular, possibilita-nos o potencial de sermos bombardeados com imagens de nudez, ainda assim lutamos contra a nudez de crianças e adolescentes, ou povos indígenas, de tal forma que o facebook se sente compelido a remover imagens destes últimos se seus indivíduos não estiverem suficientemente vestidos.
Ridiculamente, para os costumes modernos, no século XVI, foram pintadas tangas sobre os nus no fresco do Juízo Final de Michelangelo na Capela Sistina e lá permaneceram por 200 anos. E ainda hoje, a ideia de uma mama parcialmente exposta, para fazer o que as mamas foram projetadas para fazer, alimentar bebés, ainda pode provocar paradoxos de pânico moral em algumas pessoas. Coloquem uma cena de violação num filme e pode ganhar um Óscar; coloquem uma cena de nu frontal num e nem será considerado para uma nomeação.
Como a prática de sexting (envio de mensagens íntimas), por exemplo, pode estar a moldar futuras atitudes em relação à nossa nudez? Como poderia o nosso interesse por pornografia diminuir se a nudez fosse apenas mais uma experiência prática e banal? Estudos sugerem que as crianças que crescem em torno da nudez têm uma maior aceitação de seus próprios corpos mais tarde na vida. Por que é a nudez uma forma garantida de qualquer pessoa obter cobertura dos media, ou (como deve ter notado por si próprio) atrair um leitor?
Por que é a nudez, e principalmente a nudez feminina, uma forma eficaz de protesto, como descobriu o grupo feminista Femen, ou o grupo antiguerra Breasts Not Bombs? Por que Stephen Gough, conhecido como The Naked Rambler, descrito como um prisioneiro de consciência, e um homem certamente à frente de seu tempo, sofreu diversas penas de prisão de cerca de 10 anos na Escócia depois de ser preso por não usar roupas, muito concretamente nas suas presenças em tribunal? Tiramos a nudez do contexto e simplesmente não sabemos o que fazer com ela.
Não será surpreendente que, enquanto a oportunidade de ficar livre de roupas está em alta, legalmente a nudez ainda é um lamaçal. A maioria dos países não foi incentivada a reavaliar as suas leis. O Canadá, por exemplo, proíbe “atos indecentes”, mas a abordagem à nudez pública é, como em muitas outras nações, em grande parte, uma área cinzenta difusa. Da mesma forma, no Reino Unido, a nudez não é uma ofensa explícita, mas podem ser descortinadas várias infrações, dependendo das circunstâncias.
Do mesmo modo, a Nova Zelândia manteve a condenação da nudez na rua por conduta desordeira, apenas porque a rua é um local onde a nudez não é comum. O Brasil tem o crime de “atentado ao pudor”. A Austrália, apesar de Spencer Tunick, tem leis de exposição indecente que se referem apenas à área genital, tornando o naturismo desafiador. Em alguns países entram restrições religiosas/culturais. O código penal do Catar, por exemplo, proíbe o uso de roupas reveladoras, então nenhuma roupa se tira.
E, sim, em Singapura, a nudez pública é ilegal, ainda que esteja em casa e os vizinhos consigam ver. Se quiser se despir, terá que visitar os resorts naturistas mais próximos em Bali ou na Tailândia. O mundo ainda está longe de ser permissivo com a nudez pública. No entanto, aqueles que defendem o naturismo tendem a ficar realmente entusiasmados com os seus benefícios.
Falam, como faz Nicky Hoffman, da simples expressão de uma escolha livre que a sociedade parece relutante em dar por inteiro: a de usar ou não usar roupas. Falam do peso indesejado, literal e talvez psicológico, finalmente livre das restrições do vestuário. Falam do efeito nivelador: despojado, literalmente, das roupas e ornamentos através dos quais anunciamos quem somos ou, mais precisamente, quem queremos que as pessoas pensem que somos. As pessoas são forçadas a deixar as suas suposições sobre os outros na porta do balneário. Há pouca oportunidade para o estatuto social; personalidade é tudo o que conta. E há mais no naturismo também.
“Esquecemos muito rapidamente o facto de estarmos nus porque todos estão nus. Isto dá-nos uma mentalidade totalmente diferente sobre o que significa estar nu. O naturismo não é maior do que atualmente é apenas porque não há pessoas suficientes para o experimentar”, sugere Pam Fraser, porta-voz do British Naturism, um grupo de campanha para naturistas, organizador do Naked Social, uma noite de comédia sem roupa; do NKD, um festival de “roupa opcional” para naturistas, virado para famílias jovens e jovens de 20 e poucos anos; e do novo Freedom Festival, que será lançado no Reino Unido em maio.
“As pessoas mais velhas tendem a ter bem menos problemas quanto ao facto de estarem despidas, talvez por terem chegado a um ponto em que pensam ‘que se lixe, não me interessa o que os outros pensam mesmo’. Não estão ocupados a editar as selfies para o Instagram”, acrescenta Fraser. “Mas o facto é que a imagem corporal negativa é um grande problema para muitas pessoas, especialmente para boa parte dos mais jovens. Confrontados com as pressões impostas pelas redes sociais, descobrem que o naturismo é um corretivo. Rapidamente aprendem que as pessoas nuas são pessoas normais e todas elas têm as suas pregas e gordurinhas, que todos estamos muito longe das imagens de nudez (corrigidas por computador) que os media nos impõem.”
“Obviamente, entrar nisso requer um salto ou pequenos passos”, acrescenta. “Um indivíduo que eu conhecia veio (para o NKD) e realmente não gostava do seu próprio corpo, preferia estar coberto. E no primeiro dia ele tremia literalmente com o pensamento de estar nu. Mas no dia seguinte estava nu. E adorou. O Naturismo ensina que não precisa ser ‘perfeito’. Pode ser feliz consigo mesmo, com a sua própria presença.”
Ainda assim, o Naturismo, apesar da sua longa história, apesar do progresso em direção a algum tipo de normalidade, tem as suas complexidades e subtilezas. Muitos naturistas afirmam, por exemplo, como faz Fraser, que “não existe realmente nenhuma ligação entre nudez e sexualidade. Nunca senti avaliação sexual num evento naturista como já senti de vestido num clube,” afirma. Mas esta é uma posição relativamente nova, que, pode-se dizer, varre a sexualidade humana para debaixo do tapete.
O Dr. Glenn Smith, autor de Social Nudity and Sexual Well- Being, observou que os primeiros expoentes do naturismo reconheceram o que parece incrivelmente óbvio: que enquanto a nudez pública pode ser uma disciplina, a nudez partilhada às vezes também pode ser sensual, até erótica. Só mais tarde, e tipicamente em países sexualmente mais conservadores, o Naturismo foi considerado aceitável por censurar a sexualidade: realizar eventos em locais mais isolados, operar com regulamentações rígidas e assim por diante.
Nestes tempos modernos, as preocupações sobre pedofilia exploradas pelos media e ao que Smith chama de pesquisa “altamente seletiva” sobre nudez e crimes sexuais, não é de surpreender que a sexualidade seja um aspeto que os naturistas pretendem minimizar. Mas Glenn defendeu uma gestão mais progressiva dos ambientes naturistas para que a experiência do naturismo como exótico não seja estigmatizada, enquanto aqueles que o vivenciam como assexuado também não sejam explorados.
Talvez, argumenta, postular o naturismo como uma forma de explorar os sentimentos sexuais de uma maneira mais real possa ser de facto o seu apelo real e duradouro. Pode até ser o que leva os mais jovens ao naturismo de uma forma duradoura. Como Hoffman afirma: “É claro que estar num ambiente naturista não significa que não olhe, mas o que importa é que seja respeitoso”.
“Sim, há uma sensação muito especial de liberdade no Naturismo. Realmente sentimo-nos mais como uma parte da natureza. E para mim e para outros isso tornou-se uma ideologia, um modo de vida, um que faz refletir sobre os modos de vida que a sociedade geralmente oferece”, acrescenta Christoph Muller, assessor da Federação Naturista Internacional. “Claramente não é assexual porque somos todos homens e mulheres. Mas a experiência do naturismo distancia-nos rapidamente da questão do sexo. O facto é que as pessoas têm os seus próprios problemas e nem sempre querem pensar muito neles e no Naturismo. Mas deviam.”
E muitos estão a abraçar o Naturismo e a tirar a roupa. Estão prontos para dar um passo para além dos mergulhos em pelota. Quanto tempo levará para a sociedade encontrar alguma indiferença e não os importunar é outra questão. A batalha para se despojar do vestuário continua.

Traduzido e adaptado por José Luís Vieira, a partir do original de Josh Sims em https://www.esquiresg.com/features/naturism-nudism-naturalism-public-nakedness-free-the-nipple-modesty/
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