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O Medo da Nudez Social - Artigos III - Associação Naturista Pensamentos ao Vento

O medo da nudez social
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Têm chegado até nós questões colocadas por pessoas que gostavam de participar nas nossas atividades naturistas, mas que ainda não se sentem à vontade com o facto de estarem despidos perante outros, ou melhor, que sentem receio por não saberem o que poderá acontecer durante a atividade. Muitas das vezes não estará relacionado com uma suposta atividade sexual, mas com o facto de vir a sentir-se observado pelos restantes participantes ou, ainda, por não saber como (leia-se “para onde” …) irá olhar para os outros. E homens, esqueçam essa parte da provável ereção, não vai acontecer. Só acontecerá se olhar para os restantes com desejo sexual e, se assim o fizer, então está no sítio errado.
Gimnofobia é o medo ou repulsa em relação à nudez, é a demonstração de ansiedade perante pessoas nuas, ainda que se tenha consciência de ser um medo irracional. Pode decorrer de uma ansiedade geral sobre a sexualidade, o medo de ser fisicamente inferior, ou o medo de exposição e falta de proteção provocada pela nudez.
O Ser Humano aprende a ter medo de situações que outros experienciaram, ou lhe relataram, ainda que de forma ficcional, ou originadas por comportamentos que lhe ensinaram como algo errado e que se os empreender pode vir a sofrer grandes malefícios. Lembram-se do “Bicho Papão”, ou o medo que nos incutiram do escuro? Isto resulta em muitas situações que efetivamente salvaguardam a nossa integridade, mas também resulta em não experienciar algumas atividades que até teríamos vontade em levar a cabo, ou, pelas quais sentimos curiosidade. Por exemplo, mergulhar a mão em água a ferver pode resultar em graves queimaduras. Por uma questão de lógica, e sabedoria, às vezes à custa de alguns salpicos, todos nós sabemos que, realmente, mergulhar a mão em água a ferver não é agradável. Ainda assim, haverá quem o consiga fazer, ainda que por breves segundos, devido a alguma resistência acumulada. O medo do escuro até será algo positivo; entrar numa sala desarrumada ou desconhecida, completamente às escuras, pode ser efetivamente perigoso, leve uma lanterna, e ainda assim, as sombras podem pregar-nos partidas... Por outro lado, podemos ainda dar o exemplo do sumo de um qualquer fruto que, para alguns poderá ser muito saboroso e para outros algo intragável. Se não o provarmos, nunca viremos a saber. Se nos fiarmos na experiência (e gostos) alheios, poderemos estar a perder a melhor experiência da nossa vida. Se não nos coloca em risco, porque não experimentar? E a nudez social, em ambiente naturista, não coloca ninguém em risco.
De acordo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (online) o medo pode ser, entre outras, um estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaças de natureza real, hipotética ou imaginária. Pode ainda ser associado à ausência de coragem, como por exemplo o medo de atravessar uma ponte ou, neste contexto, o medo de estar despido diante de outros, ou até mesmo de ver outros despidos. Também pode ser preocupação com determinado facto ou com determinada possibilidade, como por exemplo a dúvida do que poderá acontecer pelo facto de estar sem vestuário entre outras pessoas.
Relativamente a este último, estando a falar de um contexto naturista, como o que a Pensamentos ao Vento promove, não há que ter preocupação com outra possibilidade que não seja o propósito de conviver e usufruir da atividade sem ser importunado ou importunar outros; sendo que os responsáveis da Associação, e mesmos os outros Associados, estarão lá para garantir que é isso que ocorre: uma convivência sã numa atividade sem o peso do vestuário. Os riscos associados a atividades em contexto naturista são exatamente os mesmos que se encontram associados a atividades idênticas com vestuário. Exceto, talvez, fritar bacon…
A inexperiência também pode ser um fator de incremento do medo, pois a falta de conhecimento de algo que vamos empreender pela primeira vez, não nos permite saber como essa situação pode vir a desenrolar-se ou quais são os riscos envolvidos, o que gera incerteza e pode originar uma irreal perceção de ameaça, melhor dizendo, a inexperiência pode levar a uma avaliação exagerada da ameaça, uma vez que não há referências internas ou externas para calibrar o perigo. Se associarmos a isto todos os ensinamentos que nos foram incutidos desde a infância relativamente à nudez corporal e à sexualidade, é normal que se sinta medo de estar despido socialmente.
No entanto, uma atividade com nudez social em contexto naturista é segura do ponto de vista daquilo que possa vir a ocorrer, dado que se se agendar um jantar com nudez social, o que vai ocorrer é um jantar, conversa e convívio. Se ocorressem atividades sexuais, teria o nome de orgia e nem sequer seria necessário que os intervenientes estivessem despidos.
Quando o medo é associado à ausência de coragem, terá mais a ver com a capacidade de cada um em enfrentar obstáculos; a capacidade para empreender algo que desconhece. E sim, perante os ensinamentos desta sociedade vincada por religiões restritivas da liberdade do corpo (e não só), é definitivamente um ato de coragem retirar a roupa socialmente, pelo menos a primeira vez. Tal como qualquer outra tarefa nunca antes efetuada, o medo do que se lhe poderá suceder deixa-nos sempre apreensivos. Tal como o sumo de fruta, nem todos vão gostar.
É verdade que nem todos experienciam resultados positivos ao se despirem socialmente, ou porque o resultado não correspondeu às expectativas, ou porque não teve a sorte de o empreender num contexto amigável e sentiu-se, com ou sem razão aparente, intimidado. Na realidade, serão muito poucos os que obtiveram resultados negativos na primeira experiência de nudez social em contexto naturista.
A esmagadora maioria (felizmente) das pessoas que experiencia a nudez social obtém resultados positivos e, boa parte delas, refere que obteve uma enorme sensação de liberdade. Esta sensação de liberdade não terá relação direta com a ausência de vestuário, mas com o facto de se ter libertado de estigmas sociais associados à nudez e ter obtido um resultado positivo ao empreender um ato de coragem, superando um medo.
As roupas pesam-nos mais na cabeça do que no corpo. Estar nu, em comunhão com tudo o que nos rodeia, livre dos estigmas sociais atribuídos à nudez, é, de facto, libertador e positivo; mudamos mesmo a nossa forma de ser e de estar neste mundo. Aumentamos de facto a nossa autoestima ao nos apercebermos que o corpo é apenas o nosso exterior e passamos a valorizar mais quem somos do que aquilo que os outros acham que somos. Curiosamente, o facto de nos respeitarmos mais também nos leva a respeitar, ainda mais, os outros. Mas, cada caso é um caso e cada indivíduo terá a sua forma de experienciar a sensação proporcionada pela nudez social. Tal como o sumo de fruta, uns vão apreciar mais do que outros.
Se sente curiosidade em experimentar a nudez social, porque não dar esse passo? Mas faça-o por si. Não pelos outros. Não por pressão dos outros.
Tenha a coragem, liberte-se do medo de experimentar a nudez social, a liberdade do corpo e da mente. Dê esse passo rumo a um mundo novo.

Artigo de José Luís Vieira, Presidente da Direção da ANPaV, disponível desde 18/09/2025
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