O que se sente - Artigos II - Associação Pensamentos ao Vento

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Qual a sensação?
Com a Irlanda a oficializar a sua primeira praia oficial para nudistas, Hazel Newton, naturista irlandesa de Cork, à conversa com Chrissie Russell do Irish Independent, revela o que a notícia significa para si e por que é mais feliz sem as suas roupas - mesmo na neve.
Foi há cerca de 15 anos que Hazel teve uma epifania. Estava de férias na Grécia e teve a oportunidade de sair num barco para observar a lua se erguer sobre as montanhas. Era lindo, havia fosforescência na água e uma outra senhora, que trouxera o seu fato-de-banho, saltou para a água para nadar.
Hazel adora nadar no mar (é onde se sente mais feliz) mas não havia levado o seu fato-de-banho. Nessa ocasião, decidiu que todos os sentimentos habituais de inibição e constrangimento, que normalmente a impediriam de tirar a roupa, não eram suficientes para compensar a atração de nadar num mar cheio de fosforescência sob a lua cheia. “Ainda sinto a água macia na minha pele. Foi uma experiência incrível”. Quando saiu, alguém lhe trouxe uma toalha até o topo da escada e lembra-se de ouvir uma pessoa dizer para outra: “Isto é que é confiança no próprio corpo”.
Esse foi o começo para Hazel. A partir de então, procurou férias com praias de nudismo, depois progrediu para hotéis naturistas onde todos estavam nus o tempo todo. Na primeira vez, parecia um pouco estranho estar num átrio de hotel sem roupas, mas depois de 24 horas parecia normal.
Agora, a sua bagagem de férias cabe num saco. A única desvantagem que refere é ter de voltar a vestir roupas para ir para casa: “É horrível, odeio”.
Há dois anos e meio, juntou-se à Associação Irlandesa de Naturismo (Irish Naturism Association) que, com 231 membros em abril de 2018, era a associação naturista que mais crescia na Europa. Apesar do clima irlandês, dinamizam uma variada gama de eventos naturistas. Aulas de ioga sem roupa em Dublin, pintura corporal ou a World Naked Bike Ride em Cork. Aprendeu a jogar críquete nua e até caminhou na neve em Wicklow com um grupo naturista vestindo apenas chapéus e botas, o que descreve como uma experiência emocionante.
Estar ao ar livre sem roupa dá-lhe uma sensação incrível de consciência corporal, sente-se o sol, o vento e o frio com todo o corpo. Segundo Hazel pode parecer conversa de hippy, mas afirma existir uma real sensação de estar em sintonia com a natureza. Nesta época do ano começa a querer ficar ao ar livre com o seu naturismo. Adora jardinar despida e tem a sorte de a casa em que habita ser bastante isolada, tendo essa sido uma das principais razões pelas quais a escolheu.
É definitivamente algo que tem sido benéfico para a sua saúde. Afirma ser antisstress, benéfico para a produção de vitamina D e que desperta sentimentos de aceitação do corpo.
Uma das coisas que adora no naturismo é que as pessoas não se compartimentam nem se julgam. Refere que talvez esteja relacionado com o nível de maturidade que é necessário atingir para que se possa sentir confortável junto de outras pessoas sem roupa.
Não há julgamentos sobre o estatuto social de alguém por olhar o seu vestuário ou fixando-se no emprego que têm, são apenas pessoas de todas as idades e de todos os tipos de origens.
A definição de 'naturismo' relaciona-se com a nudez não-sexual e social. Mas, sem dúvida, o maior equívoco que as pessoas têm é que esta nudez é sexual. E esta é uma visão muitas vezes reforçada pelos media que parecem estar presos a uma mentalidade de paródia cinematográfica sobre a nudez. Talvez seja difícil entender para quem nunca esteve num evento naturista, mas é o ambiente mais não-sexual que Hazel já presenciou.
Hazel indica que a nudez no naturismo é muito mais parecida com a forma como alguém se sentiria quando criança, ao correr pela praia sem roupas e sem preocupações na vida. Muito inocente e seguro. Hazel afirma que se sentiria muito mais segura num evento naturista do que a passear por uma rua da cidade.
Ao crescer, a mensagem é sempre no sentido de encobrir certas partes do corpo, caso contrário as pessoas vão assumir que estará disposta a fazer sexo e Hazel considera que isso inibe muitas pessoas, particularmente as mulheres.
Hazel geralmente surpreende-se com o quão positivas as pessoas são na sua reação quando ela fala sobre o seu naturismo. Nunca teve ninguém a dizer que ela não deveria praticar naturismo ou que ela é, de alguma forma, uma pessoa terrível.
Não há muito tempo, estava Hazel numa praia que é tradicionalmente mista quando decidiu caminhar por toda a extensão da costa. No caminho foi perguntando às pessoas se elas estavam confortáveis com o facto de ela estar despida e nenhuma delas se mostrou incomodada. Mas suspeitou que poderia ter sido diferente se fosse homem. Hazel comenta que muitos dos seus colegas só praticam naturismo em eventos internos organizados. Como país, entende que os irlandeses se estão a soltar acerca das coisas. Em geral, acha que as pessoas não se preocupam, elas compreendem que há coisas piores do que ver um corpo nu numa praia. O respeito é a chave.
Legalmente, quer na Irlanda, quer em Portugal, não há problema em ficarmos nus em qualquer lugar, desde que não exista intenção de causar medo, angústia ou alarme ou de iniciar uma atividade sexual. Mas a intenção é não causar problemas e, como tal, o melhor é não provocar. Hazel refere um local em Dalkey onde afixaram recentemente uma placa informando que as pessoas podem ver um corpo nu e entende que é uma boa ideia, porque permite a alguém que tenha sentimentos terrivelmente fortes contra a nudez optar por não avançar, pois seria angustiante para essa pessoa ver alguém nu.
Mas também não se trata de um local onde as pessoas costumem ir com as suas famílias e é por essa razão que é frequentado por naturistas. Não se pretende ofender ou perturbar as pessoas. Hazel afirma não estarem a fazer campanha para uma praia exclusivamente nudista em todos os condados, apenas reivindicam sinais para ajudar os visitantes a encontrar os locais naturistas tradicionais de modo a que qualquer um que tenha um problema com a nudez alheia possa escolher ir a outro lugar: “Há muitas praias fantásticas para todos”.
Hazel afirma não ter histórias embaraçosas ou constrangedoras e que isso pode ser um sinal de como os naturistas são acolhedores e maduros. Mas lembra que há sempre as habituais piadas sobre a proteção quando se está a fazer churrasco e o protetor solar a cobrir áreas delicadas. Em termos de etiqueta, as regras são as mesmas de quando se está vestido: se estiver a conversar com alguém, converse com o rosto dessa pessoa. “Geralmente somos um grupo muito porreiro de pessoas que por acaso preferem fazer algumas coisas sem roupas”.
Hazel não consegue imaginar não ser naturista e não tem planos para parar. “É apenas aquilo que sou neste momento”.

Traduzido e adaptado por José Luís Vieira a partir de https://www.independent.ie/life/what-it-feels-like-irish-naturist-50-on-why-shes-happier-with-her-clothes-off-even-in-the-snow-36812436.html
em 30/07/2018
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