A minha primeira vez num resort naturista - Artigos II - Associação Pensamentos ao Vento

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A minha primeira vez num resort naturista
Tradução do relato de Abigail Moss
Steve, o meu namorado, e eu ficámos especados, nus, de mãos nas ancas, a olhar desesperados para o nosso carro alugado, as rodas traseiras quase meio metro enterradas na areia. Nenhuma velocidade furiosa para a frente ou marcha-atrás maldita foi capaz de nos desenterrar. Estávamos atolados. Felizmente, naquele momento, apareceu, de uma esquina, um francês nu que se ofereceu para ajudar. O francês e o Steve empurraram, eu meti o pé no acelerador. Uns minutos depois estávamos desatolados. Apertámos as mãos com o nosso salvador e ele continuou o seu caminho, traseiro branco a desaparecer na direção do pôr-do-sol. “Preciso de um duche”, disse o Steve. “Tenho areia por todo o lado.”
Estávamos em CHM Montalivet, o mais antigo resort naturista, fundado em 1953. Atualmente, o resort tem 157 hectares, situa-se num pinhal e é banhado por uma larga extensão de praia de areia branca da costa atlântica. Existem cerca de 1000 bungalows privados no local, alguns são propriedade de famílias que lá vivem permanentemente, outros são usados pelos turistas nos meses de verão. Há uma loja de conveniência, uma padaria, uma banca de jornais, uma loja de ferragens, aluguer de bicicletas, vários bares e restaurantes, duas piscinas, um spa, um campo de tiro com arco, quadras de ténis, um cinema e um cabeleireiro. Na verdade, é uma cidade. Uma cidade despida.
Vale a pena referir que normalmente sou o tipo de mulher que toma banhos de sol de fato de banho completo e preferia morrer a participar numa aula de Yoga sem roupa. Vivo em Shoreditch, onde será justo dizer que as aparências contam. Descreveria o meu corpo como quase exatamente na média. Ganhei um pouco de peso desde que deixei de fumar e preocupo-me o suficiente para ocasionalmente pedir uma salada, o suficiente para ir ao ginásio. Mas nada perto de usar sumos desintoxicantes ou contratar um personal trainer. Não detesto o meu corpo, mas isso também não quer dizer que queira estranhos a olhar para ele. Não sou naturista, suponho que é o que estou a querer dizer. Ou, pelo menos, não era, até há quinze dias. Para ser honesta, depois de uma estadia de quatro dias num resort naturista, sinceramente ainda não tenho bem a certeza de quais são os critérios. Para ser naturista, quero eu dizer.
Pelo resort existem sinais cordeais com uma família de banda desenhada brincado nua pelos bosques a pedir aos visitantes que “Respeitem os nossos valores”. Mas não se trata de um caso de nudez 24 horas por dia. Ao final da tarde, normalmente vestimo-nos para jantar, um aspeto de etiqueta que o Steve aprendeu da pior maneira na nossa primeira noite, depois de atravessar um restaurante apinhado usando apenas uma t-shirt, com a salsicha e as nozes soltas; mais ou menos ao nível dos olhos de dezenas de pessoas sentadas, a saborear vinho e mexilhões marinados. Isto foi, e para ser justa, o oposto (e por isso, suponho eu, igual) a um passo em falso que eu cometera antes nesse dia. Íamos de toalhas e chapéu-de-sol pela mão, a caminho da praia, quando um dos simpáticos funcionários do resort correu para nos alcançar. “Desculpe,” disse ele, gesticulando para os meus calções, “Por favor, será possível?” Apontou para um grande sinal que eu, de alguma forma, não vira. Em francês, dizia: “Praia 100% naturista.” Os calções tinham de ir.
Não se dá entrada num resort naturista sem se esperar tirar a roupa. A não ser que se seja muito estúpido e/ou excecionalmente insensível à cultura. Apesar disso, tal como a maioria das coisas na vida, tomei a atitude de superar os obstáculos conforme eles vão surgindo. E afinal, no que toca à nudez pública, superamos um obstáculo e superamo-los todos. Tirei os calções e ninguém olhou, ninguém apontou, ninguém riu. Claro que não. Todos os outros estavam nus também. Em segundos o momento passou e eu era apenas uma pessoa despida numa praia com um monte de outras pessoas despidas. Não tem qualquer relação com o aspeto que temos. Numa praia, estar nu faz todo o sentido. Sem fato-de-banho para a areia se enfiar, sem marcas de bronzeado para nos preocuparmos. E depois de estarmos nus numa praia, porque não num bar, ou numa loja da esquina, numa piscina? Todos somos apenas pessoas. Vários tamanhos e formatos e níveis de pilosidade e de rugas e bronzeado, mas, basicamente, todos o mesmo.
No dia seguinte, com as mamas e o rabo ligeiramente queimados do sol, Steve e eu estávamos sentados no bar da praia, a beber cerveja em copos de plástico e na conversa com um adorável casal americano na reforma, com uma deliciosa pronúncia do sul profundo. Todos estávamos entusiasmados com o impecável clima francês, trocámos dicas sobre os melhores locais para jantar. Reclamámos sobre o Brexit e o Donald Trump. Falámos sobre os nossos empregos, que pareceram muito distantes. O homem tinha sido Coronel do Exército Norte Americano. Um caráter intimidante por definição, mas não aqui. Há mais de vinte anos que, anualmente vinham ao resort. Estar despido, percebi, não nos expõe, de forma alguma, torna-nos anónimos e iguais. Voltar a casa para os cabeçalhos e reportagens de televisão carregadas de ódio e divisões, há algo muito confortante em ter descoberto um local onde as pessoas são apenas pessoas. Para o próximo verão estaremos de regresso.
Traduzido e adaptado por José Luís Vieira a partir de https://www.refinery29.uk/my-first-time-at-a-naturist-resort
em 11/06/2018
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