Diferença entre nudismo e naturismo - Artigos - Associação Pensamentos ao Vento

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Roupas-opcionais
Depois de traduzir um artigo sobre o futuro do naturismo, de Nick e Lins, naturistas belgas com um blogue no qual discutem vários temas relacionados com o naturismo, li um outro, anterior, dos mesmos autores, em que fazem referência a algo que me faz todo o sentido e que, de certo modo, tem vindo a ser política da Associação Pensamentos ao Vento desde a fundação: roupa-opcional.

Nos espaços naturistas existentes em Portugal, nomeadamente praias oficiais para a prática naturista (e até como exemplo, o Monte Naturista O Barão), a nudez não é obrigatória. Bom, n’ O
Barão existe obrigatoriedade de nudez na piscina e área envolvente. Mas fiquemos pelas áreas públicas.

Em Portugal não existe qualquer lei a proibir a nudez em locais públicos, nem nenhuma a autorizar. Facto é que, desde sempre, andamos vestidos em locais públicos e o espectável é não encontrar ninguém despido na fila do supermercado ou das finanças, a correr pela rua ou a ir para o trabalho. Deste modo seria também espectável que nos espaços naturistas públicos existisse apenas nudez absoluta. Mas não é assim. E porquê?

Se é possível tornar um espaço confinado, como uma piscina, exclusivo a naturistas, já uma praia seria complicado. As praias são públicas e proibir o uso de roupas em praias naturistas, leia-se espaços públicos naturistas, seria tornar essas praias exclusivas e privadas para naturistas. Seria possível? Muito dificilmente. Nós, naturistas, que apregoamos a liberdade, fechávamo-nos dentro de uma espécie de recinto, para não lhe chamar gaiola, que teria de ser vedado e fiscalizado à entrada e no areal. Voltávamos a ficar confinados ao obscurantismo, continuávamos a deixar que os não-naturistas imaginassem coisas estranhas sobre os frequentadores e sobre o que se passa nesses locais e que normalmente não abona muito em favor da realidade e da filosofia naturista. Mas, mais grave, do meu ponto de vista, iriamos bloquear a entrada daqueles que estariam dispostos a frequentar o espaço e a pouco e pouco ir retirando as peças de vestuário conforme fossem ficando à vontade. Impediríamos os que tivessem vontade de experimentar, mas ainda tivessem dúvidas. E os agentes fiscalizadores? Os nadadores-salvadores? Andariam despidos ou vestidos? Vestidos estariam contra as normas do espaço. Despidos não poderiam estar por completo, de modo a que os frequentadores do espaço os pudessem identificar, pois a nudez igualiza-nos.

Creio que a solução é mesmo a roupa-opcional, que no fundo é a atual realidade nacional para os designados espaços públicos naturistas. Deste modo, todos são bem-vindos. Mas coloca-nos outras questões, normalmente relacionadas com a questão da prevenção dos espreitas. O problema mantém-se em qualquer dos casos, quer seja roupa-opcional, quer seja 100% despidos. É que há os que se dizem naturistas, e até se despem, mas, ao invés de irem disfrutar da Natureza, só lá vão para disfrutar dos corpos alheios. Há muitos espreitas entre os naturistas, quer estejam vestidos, quer estejam despidos. Apenas o comportamento os pode denunciar. Também não se pode acabar com os passantes que apenas passeiam alheios aos despidos ou os que se passeiam de olhos postos na nudez alheia; teríamos de vedar a praia ou colocar os tais fiscais em cada extremidade. Mas lembro, vedar uma praia para uso exclusivo de naturistas seria um passo na direção da proibição efetiva da nudez em qualquer outro espaço não licenciado para esse fim.

Vivemos numa sociedade em que a maioria desconhece, e muitos nem sequer querem ouvir falar, quais os benefícios que existem em não usar roupa quando esta se torna desnecessária.

Ao lançar a ideia que hoje é conhecida como Associação Pensamentos ao Vento, essa foi a base. Uma coletividade que congregasse naturistas e não-naturistas, que realizasse atividades para os naturistas sem fechar as portas aos não-naturistas. Vivemos numa sociedade vestida, só um louco poderá aspirar a despir toda a sociedade. Não é essa a ideia da associação, nem a minha. A ideia é mostrar que os naturistas são apenas pessoas como os não-naturistas que veem a roupa como algo necessário em algumas ocasiões, nomeadamente segurança e conforto contra as condições climatéricas e na execução de algumas tarefas. Mas quem gosta de andar despido tem de conviver com quem não se despe socialmente, e só o pode fazer numa base de respeito. É necessário “ensinar” os não-naturistas. Não negando a possibilidade de frequência e de permanência nos espaços naturistas àqueles que não gostam de estar socialmente despidos será uma forma de, aos poucos, podemos ir “invadindo” os espaços que não estão designados como naturistas e tornar a nudez social em algo absolutamente normal, em qualquer momento, em qualquer lugar, sem com isso chocar a maioria das pessoas e sem com isso obrigar outros a estarem despidos Aos poucos talvez possamos viver numa sociedade em que o nu é aceite como natural, em que o nu, mesmo em minoria, é respeitado.

Assim, poderemos deixar de ter espaços públicos designados como espaços naturistas, sem que isto impeça a existência de espaços privados exclusivamente naturistas. A Associação Pensamentos ao Vento, enquanto entidade pública de direito privado, abre as suas portas a todos sem exceção. Aos naturistas, evidentemente, e aos não-naturistas que queiram conhecer o naturismo, experimentar o naturismo, ou apenas conviver com os seus amigos naturistas, desde que não tenham qualquer problema com a nudez alheia, e que, quem sabe, talvez um dia abracem, também, a nudez social. Tal como na restante sociedade, a opção é sempre de cada um

Artigo de opinião por José Luís Vieira
em 01/06/2017
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