Ir para o conteúdo

Pare e pense antes de elogiar - Artigos III - Associação Naturista Pensamentos ao Vento

Pare e pense antes de elogiar
Nota da Associação:
Em boa verdade, nunca nos apercebemos de alguma vez ter ocorrido, na nossa presença, algo semelhante ao tratado neste artigo aqui traduzido e adaptado. No entanto, acreditamos que possa ocorrer, mesmo pelas razões apontadas pelo autor.
Por essa razão, e por a reflexão ter uma relação com aquilo que rege o Naturismo, aqui fica mais este artigo.

Pare e pense antes de elogiar um naturista
Ena, ficas muito bem nu.
É melhor o teu namorado ter cuidado!
És realmente uma bela jovem mulher.
És mesmo o tipo de jovem que adoramos ver tornar-se naturista!
Tudo isto são elogios. São todos positivos, todos dizem algo agradável acerca da pessoa a quem são dirigidos.
E são a coisa errada para se dizer.
Frequentemente, os naturistas expressam frustração ao tentar convencer outros de que a nudez social é algo que deviam experimentar. Os grupos mais cobiçados, também, são as mulheres e os jovens. São necessárias mais mulheres para ajudar a equilibrar o rácio do sexo feminino face ao sexo masculino, que tende, de longe, a pender para o lado do masculino. E os jovens (onde quer que se coloque a fasquia, mas normalmente algures abaixo da meia-idade) são o futuro do movimento naturista e essenciais para a saúde de qualquer movimento ou coletividade.
Elogios como os mencionados são garantia absoluta para afastar mulheres e jovens, ou pelo menos para tornar a sua experiência mais negativa do que aquilo que deveria ser.
Mas são coisas agradáveis de se dizer, certo? Porque causarão então problemas?

Dirigir a atenção para as coisas erradas
O primeiro problema com estes elogios é que eles são uma mensagem para o destinatário para onde a atenção dos outros é direcionada. A intenção da mensagem pode ser positiva, bem-vinda e encorajadora. Porém, quanto mais subtil a mensagem, mais o oposto se torna. Isto porque a mensagem que passa é “Estou a julgar o teu corpo de uma forma sexual”.
Primeiro, tiremos as dúvidas do caminho. É uma boa pessoa, não está a julgar ninguém, não há nada de sexual em proferir qualquer uma das expressões.
Todos estes protestos focam a pessoa que faz o comentário e a sua intenção. É irrelevante para quem recebe.
O que está a fazer com a pessoa com quem está a falar é torná-la imediatamente ciente de que tudo o que se diz sobre os naturistas, de que não há qualquer relação com sexualidade, de que não existe vergonha do corpo, nem julgamentos, é falso. Porque alguém está definitivamente a julgar o seu corpo.
Não está a dizer nada de mal? Não importa. Fez um julgamento. Isso diz ao objeto do seu julgamento que esteve a ser avaliado. Talvez todos os outros o estejam também a avaliar. Talvez outros façam uma avaliação diferente.
Há um outro aspeto também a considerar. Quando se avalia alguém pela aparência, mesmo de forma subtil, envia-se uma mensagem na mesma linha de como a sociedade, no seu geral, vê o corpo, especialmente em determinadas idades e tipos de corpo. A mensagem é “Estamos a avaliar parceiros sexuais” e a pretensão de que a nudez é segura, aberta e igual colapsa.
Mais uma vez, é percetível que esta não é a intenção de quem está a fazer o elogio, pelo menos, não de forma consciente. Pode ser que exista um preconceito inconsciente em jogo e, por definição, normalmente não estamos cientes dos preconceitos inconscientes! Definitivamente, é importante que todos nós consideremos se o que dizemos e fazemos é guiado por preconceitos que possuímos e que podemos atribuir à nossa educação, às pessoas, à sociedade que nos rodeia, e for aí fora.
Mas seja qual for a motivação do elogio, ele ainda interfere na dinâmica da sociedade vestida exatamente do mesmo modo que o naturismo procura ser diferente dele. A mensagem subentendida das coisas que dizemos não está inteiramente sob o nosso controle e para qualquer naturista, especialmente alguém novo no local ou no Naturismo em geral, a mensagem subentendida pode falar muito mais alto do que imaginamos.

Inclinando as escalas
Mas há mais, no entanto. Isto é acerca de poder e equilíbrio.
Um dos aspetos mais atrativos no Naturismo é a forma como nos coloca a todos no mesmo patamar. As armadilhas sociais desaparecem. Somos forçados a pôr as nossas falhas e defeitos em evidência. Afirmamos que aquilo que os outros veem, e aquilo que vemos dos outros, não importa. E, acima de tudo, estabelecemos uma confiança mútua, adotando essa vulnerabilidade juntos. Esse tipo de elogios destrói tudo isto.
Não é apenas o facto de destruir essa confiança mútua ao avaliar alguém de forma aberta. Também desequilibrou a balança do poder retirando-o à pessoa que foi elogiada e direcionando-o para si. Colocou-se no lugar de avaliador colocando a outra pessoa no lugar de avaliado. Conferiu a si mesmo autoridade sobre a outra pessoa, ou pelo menos declarou-o.
A sua posição relativa e a da outra pessoa também podem ser exacerbadas se possuir alguma autoridade. Para o bem ou para o mal, a sociedade dá voz mais proeminente aos homens do que às mulheres e às pessoas mais velhas do que às mais novas. Deste modo, se, como pessoa de meia-idade ou mais velha, disser a uma mulher de vinte e poucos anos que ela é bonita, vai assumir uma posição de poder sobre ela de forma legítima e evidente.
No lugar dessa mulher, pela primeira vez nua num ambiente não-sexual, ao ouvir este elogio, o que vai pensar? De certeza que pensaria que tudo o que ouviu acerca do Naturismo era disparate. E não voltaria.

Apenas pare
Mas isso não é…
Estava apenas a tentar…
Mas os homens nem sempre…
Não. Pare com isso.
Se a única coisa que consegue pensar em dizer a alguém for elogios à sua aparência, aprenda a ficar calado.

Em vez de elogios…
A primeira coisa que pode fazer ao encontrar um estranho que gostaria de elogiar num espaço naturista é perguntar-se se realmente precisa de lhe dirigir a palavra. Qual a razão para lhe falar e porque é que tem de se lhe dirigir. Se não consegue pensar em alguma boa razão para o fazer, um simples sorriso, “Olá” e talvez “Hoje está um belo dia, não está?” é suficiente. Depois disso, a não ser que o estranho lhe responda com algo mais substancial, pode continuar sem mais palavras.
Se um estranho estiver claramente a necessitar de instruções, como por exemplo, se o vir a andar com aspeto desorientado com lixo na mão à procura de um caixote, seja útil e encaminhe-o na direção daquilo que ele deve andar à procura. Depois disso, a não ser que o estranho lhe responda com algo mais substancial, pode continuar sem mais palavras.
Se um estranho estiver por perto e hesitante, por exemplo, se parecer um pouco nervoso acerca de uma aproximação e em escolher uma cadeira perto de um grupo de naturistas, será perfeitamente normal dizer-lhe “Estas cadeiras não estão ocupadas. Esteja à vontade para ocupar uma”. Depois disso, a não ser que o estranho lhe responda com algo mais substancial, pode continuar sem mais palavras.
Percebe-se o padrão? A interação é limitada ao benefício da outra pessoa. E a menos que a outra pessoa escolha interagir posteriormente, o próximo passo (em que lhe diria que é muito bonito ou que tem uns belos músculos, ou algo parecido) é um passo que não precisa dar.

Desculpas adiantadas
É provável que vá afastar alguns leitores com esta parte. Alguns sentir-se-ão um pouco insultados, porque sentem que não precisam de explicações sobre interação humana básica. Outros vão sentir que estou a ser preconceituoso para com eles, apenas porque são homens, ou porque querem ser pessoas simpáticas, ou porque porque porque.
Bom, peço desculpa por isso. Mas quero realmente ajudar a parar com essa dinâmica de pessoas serem (supostamente) elogiosas e outras pessoas se sentirem (na verdade) desconfortáveis e afastadas do Naturismo.
 
Prefiro que nos concentremos no que considero como um valor-chave que os naturistas partilham: que a nudez social nos aproxima. E, nesse contexto, devemos evitar fazer qualquer coisa que nos afaste. Qualquer um de nós.

Traduzido e adaptado por José Luís Vieira, a partir do texto original de Matthew McDermott, em 26-04-2021
https://www.writenude.com/stop-and-think-before-you-compliment-a-nudist
Outros artigos
anterior subir next
PENSAMENTOS AO VENTO - ASSOCIAÇÃO
Fundada a 01 de março de 2013
Morada postal: Rua Salvador Allende 37 4º dto 2685-114 SACAVÉM
Morada da sede: Rua Francisco Lourenço, 14A 2685-030 SACAVÉM
Coordenadas: 38.792641, -9.107435
Correio eletrónico: [email protected]
Telefone: 925 370 219
NIPC: 510 907 776
Copyright © 2013 - Todos os direitos reservados
Voltar ao conteúdo