Crescendo com naturistas
Michael Ruehle, filho dos proprietários do Sun Valley Gardens (Jardins do Vale do Sol), relembra a sua infância no parque naturista de 2.500 metros quadrados.
Os pais de Michael mudaram-se de Toronto para Fenwick por volta de 1955-56 para dirigirem um parque naturista, algo incomum nesses tempos, mas o seu pai tinha esse plano desde a sua juventude, na Alemanha, onde o conceito já era bastante popular. Descobriu que um pequeno grupo de pessoas oriundas de Fonthill, St. Catharines e Toronto tinham começado a se juntar num terreno em Roland Road e os pais de Michael adquiriram a propriedade em 1955, crê. Chamaram-lhe Sun Valley Gardens e começaram a fazer significativas melhorias.
No seu auge, no início da década de 1960 até meados da década de 1970, existiam cerca de 500 membros adultos e era um dos maiores clubes naturistas da América do Norte, com membros de tão longe quanto Toronto, Montreal, Boston e Cleveland, até mesmo visitantes sazonais anuais de Los Angeles e Florida. Era tão conhecido que chegaram a receber uma carta da África Ocidental endereçada apenas com “Sun Valley Gardens, Canada”. O posto de correios de Montreal marcou com “tente Toronto”; Toronto marcou “perto de St. Catharines” e, claro, St. Catharines sabia para onde a enviar.
O autor do artigo, Michael Ruehle, nasceu em 1957 e viveu permanentemente na propriedade até partir para Toronto para frequentar a universidade, após concluir o seu percurso escolar até ao secundário em escolas próximas da propriedade. Afirma ter tido uma infância interessante, no mínimo.
Manteve uma casa na propriedade até 2007, momento em que foi o espaço vendido, pouco depois do pai, Karl, ter falecido em 2006. A mãe, Marlies, faleceu em maio de 2019 e o autor escreveu o artigo a 26 de dezembro de 2020, dia em que a mãe completaria 89 anos.
Desde o seu início, ao invés de tornar o espaço reservado e “secreto”, o pai do autor tomou o caminho oposto. Fez questão de agendar um fim-de-semana “casa aberta” para que todos os vizinhos, políticos locais e os média pudessem ir e ver o espaço.
Fê-lo por duas vezes. A primeira, qualquer membro que escolhesse marcar presença nesse fim-de-semana, deveria utilizar vestuário de modo a evitar o risco de uma reação exagerada por parte das forças da autoridade. O evento correu muito bem e cerca de 2.000 pessoas visitaram o local. As pessoas perceberam que não se tratava de um clube de sexo selvagem ou coisa parecida e a imprensa foi elogiosa na sua generalidade.
Da segunda vez, fez toda a gente assinar um termo de responsabilidade à entrada para que tomassem conhecimento de que iria haver nudez. Ambos os eventos tiveram bastante sucesso e significou que em vez de serem incomodados, o espaço acabou por ser rapidamente aceite pelas autoridades. De facto, e em resultado direto disso, existia um núcleo de membros de localidades próximas como Pelham, Welland e St. Catharines, a maioria dos quais mantiveram um pouco de silêncio sobre o facto de serem frequentadores. O pai do autor era também extremamente astuto sobre o valor de uma cobertura positiva da média e recebia bem os repórteres que os visitavam, como a CHCH-TV, a CBC em diversas ocasiões (particularmente a entrevista de June Callwood) e de algumas das estações de Buffalo. O autor diria que a filiação de membros se dividia de igual forma entre canadianos e americanos da área de Niagara Falls, Buffalo e Rochester. As pessoas perceberam que não se tratava de um clube de sexo selvagem ou coisa semelhante e a imprensa era, geralmente, elogiosa.
Na altura de maior desenvolvimento do Sun Valley Gardens como espaço naturista, a Polícia Regional de Niagara de quando em vez visitava o espaço. O pai do autor dava-se bem com as autoridades, o que significa que podia contar com o seu auxílio quando aparecia algum intrometido a tentar infiltrar-se na propriedade para uma espreitadela. Sempre que um novo agente era contratado, fazia parte da praxe levá-lo até ao parque, sem aviso prévio. Normalmente, o agente mais velho dizia que o levava “a conhecer melhor as partes rurais de Niagara”. A determinado momento, o agente mais velho dizia que iam tomar um café, o que levava o mais novo a indagar sobre onde iriam beber um café no meio do nada. Iam até ao portão de entrada e tocavam à campainha, falavam com o dono do espaço, que lhes abria o portão e entravam. O agente mais novo não fazia a menor ideia de onde acabara de entrar, pois a placa de Sun Valley Gardens era ambígua. Estacionavam na área do clube e os olhos do novo agente deviam saltar das órbitas quando se apercebia que as pessoas andavam nuas.
O pai do autor ia ao encontro deles ao carro, apenas com as suas famosas botas de borracha, e acompanhava-os até ao snack-bar junto à piscina, onde os agentes se sentavam e conversavam um pouco com o proprietário e algumas das outras pessoas enquanto bebiam o seu café e comiam um pedaço de bolo.
O pai do autor encorajava estas visitas, claro, porque, primeiro, significava que a polícia aceitava as coisas naturistas e sabia em primeira mão que nada de estranho se passava por ali (apesar de, para alguns, o naturismo ser estranho) e, em segundo lugar, se ocorresse uma emergência, todos saberiam como chegar rapidamente.
Muitos se questionavam como as pessoas se tornavam naturistas e se juntavam ao clube. Naqueles dias, bem antes da média social, o pai do autor fazia anúncios, mais ou menos específicos, dependendo do local onde fossem transmitidos. Alguns eram nas revistas de naturismo de então e, basicamente, diziam “Venha visitar Sun Valley Gardens, o melhor espaço naturista perto de Toronto e a norte do Estado de New York”.
Também anunciava nos jornais locais (apesar de nem todos o permitirem), que seriam um pouco mais discretos: “Desfrute de um estilo de vida despreocupado em Sun Valley, o melhor espaço naturista familiar do Canadá”. Acrescentava a morada e “Visitas só por marcação”. A maioria solicitava mais informação e eram enviadas todas as brochuras que estivessem disponíveis. Os visitantes apresentavam-se ao portão, tocavam à campainha, falavam com o proprietário e entravam.
Normalmente a metade do casal que sugeria experimentar o naturismo era o marido e frequentemente a esposa estaria renitente, pelo menos naquela época, por isso era um pouco chocante, para esses mais renitentes, serem recebidos no parque de estacionamento do clube pelo proprietário, apenas com as suas botas de borracha, com as partes normalmente não expostas ao nível dos olhos através da janela do carro.
Os visitantes eram conduzidos a um lugar de estacionamento e convidados a fazerem uma visita ao espaço, vestidos. Desciam a estrada até ao vale, onde a piscina, o snack-bar e outras instalações se localizavam, sendo cumprimentados por outras pessoas ao longo do caminho. Num fim-de-semana estariam algumas pessoas por lá e quando os visitantes chegavam ao vale, onde ficava a grande área aberta, encontravam as pessoas a tomar banhos de sol, a nadar, a jogar às cartas, vólei ou badminton, tanto adultos como crianças.
Neste momento, o que acontecia era que o marido estaria ligeiramente desapontado por o local não estar cheio de modelos da Playboy, mas de pessoas mais parecidas com as que encontraria num centro comercial, se estivessem despidas. Por outro lado, a esposa parava de se preocupar se a sua aparência ia ou não corresponder à das restantes e perceberia que aquelas pessoas estavam apenas confortáveis na sua própria pele.
Depois de mostrar todo o espaço da propriedade e as instalações, o cicerone convidava as pessoas a passar o resto do dia, mas explicava que também teriam de se despir para o fazer. Raramente partiam. Despiam-se no carro, levavam uma toalha (todos os naturistas usam uma para se poderem sentar) e voltavam ao vale para conhecer outras pessoas, nadar ou sentarem-se no snack-bar a conversar com a mãe do autor. Depois decidiam se passariam a membros anuais, fim-de-semana ou se pagariam apenas a diária.
Naquela época, por norma, não era permitida entrada a homens sozinhos. Isto era para limpar a ideia de ambiente de bar de encontros. Existiram algumas exceções. Um membro de Toronto já frequentava o espaço antes dos pais do autor adquirirem a propriedade e foi admitido, tendo-se mantido até aos seus 90 anos. E existiram mais umas quantas exceções ao longo dos anos. Alguns eram homens que vinham com as suas companheiras e depois se separavam, eles ou as mulheres eram autorizados a continuarem como membros. Mais tarde, nos finais da década de 1970, início da de 1980, esta situação aligeirou um pouco.
Nos finais da década de 1960, algumas famílias viviam em permanência na propriedade, mas na sua maioria eram visitantes das redondezas para passar os fins-de-semana ou ficavam por 2 ou 3 semanas nas férias de verão, com muitas famílias a regressarem durante dez anos, ou mais, com atrelados semipermanentes ou bungalows de verão. Por vezes as crianças cresciam e inscreviam-se como membros de pleno direito, quando atingiam a idade adulta, algumas das quais ainda da atual esfera de conhecimentos de Michael. O local estava sempre bem representado por crianças das mais variadas idades, apesar de ser frequente um estranho momento na puberdade, quando algumas crianças deixavam de frequentar o espaço com os seus pais, ou até mesmo toda a família deixava de aparecer. Na sua maioria, as crianças passaram por esse período. Na verdade, com certeza não existem segredos sobre o que acontece com os seus corpos, pois podiam ver as versões adultas à sua volta. O facto de ninguém ligar muito a isso era, do ponto de vista do autor, algo saudável para a sua autoestima.
Muitos amigos de Michael questionavam-no sobre como era ao descobrirem onde ele fora criado. De acordo com as suas próprias palavras, sentia-se perfeitamente normal. A coisa mais estranha para Michael foi a primeira vez que foi para a escola e teve de entender que era espectável que as pessoas usassem sempre roupa, mesmo com bom tempo. Pareceu-lhe um pouco ridículo e foi quando aprendeu que as normas sociais são todas relativas.
Nunca escondeu onde vivia e por isso foi alvo de muita curiosidade entre as outras crianças. Mas a maioria dos seus amigos, rapazes ou raparigas, eram autorizados a visitá-lo pois os seus pais tinham visitado o espaço, aproveitando os períodos de “casa aberta”. Tinha também um grande grupo de amigos em Sun Valley, quer fossem visitantes de fim-de-semana, quer para passar o verão.
Também lhe perguntavam se andava sempre despido. Não, apenas quando o tempo o permitia e não se anda vestido quando todos os outros não o estão. Chuva ou frio? Usa-se algo à prova de água ou uma camisola se tiver frio. Mulheres no período menstrual? Usam a parte de baixo do biquíni ou uns calções. De outra forma escolhe-se naturalmente andar despido.
Mas havia perspetivas diferentes. Um livro frequentemente citado sobre naturismo em Ontário, “Au Naturel: The History of Nudism in Canada”, perpetua algumas criticas bastante duras sobre o pai de Michael. O próprio autor admite que o pai era um mesquinho obstinado com mau temperamento. As pessoas achavam (e o autor também), que ele podia ser por vezes ditatorial, mas o livro parece basear-se demasiado nos relatos de algumas pessoas que saíram de Sun Valley Gardens em más circunstâncias e, claro, existem sempre dois lados da mesma história.
O pai de Michael era muito rígido, em parte porque sabia que se algo de mau ocorresse, as autoridades locais deixavam de ser tão amistosas. E também não apreciava coisas como lixo fora dos locais apropriados ou membros a passearem descalços e pisarem poias de cães, o que acabou por o levar a proibir a entrada de cães porque as pessoas não os mantinham sob controlo.
Consta no livro que não era permitido às pessoas reorganizar o mobiliário exterior. Nem por isso, o que não era apreciado era que o arrastassem da área pública para o espaço privado, ou deslocado e deixado para alguém voltar a colocar no respetivo lugar. O autor nunca presenciou o pai limitar alguém a jogar algum dos desportos disponíveis. Não tinha interesse em impor qualquer tipo de agenda para os praticantes. Podia acontecer alguém monopolizar algum dos campos de jogo durante todo o dia e ele lhes pedisse para o disponibilizar a outros.
O que o autor sabe, e afirma, é que se divertiam imenso com fogueiras, canções à volta da fogueira, churrascos de porco e borrego no espeto, desfiles de Halloween e outros improvisados, festas dançantes com DJ’s e caças ao tesouro para as crianças.
Uma das fontes de discórdia era o álcool. O álcool era uma implicância para o pai do autor e, apesar de ele não ser realmente contra o álcool, a sua principal preocupação era saber que uma única má situação por excesso de álcool poderia trazer-lhe imensos problemas. Apenas nos anos 1970 foi permitido o consumo de álcool no empreendimento. Até lá, apenas era permitido no espaço privado de cada um. Assim, podia-se consumir discretamente na sua privacidade, mas festas com bebida, barulhentas e a altas horas da noite seriam avisados ou sumariamente expulsos. Algumas das pessoas que não toleravam estas regras de consumo de álcool saiam para iniciar o seu próprio empreendimento naturista com as suas próprias regras, perto de Hamilton, por exemplo.
O foco do livro é no pai do autor, mas este também refere que a mãe foi extremamente responsável pelo sucesso do Sun Valley Gardens. O autor ainda encontra e conversa com pessoas que a conheceram e ficavam bastante impressionadas com a sua capacidade para manter tudo em andamento.
Em meados dos anos 1970 começou o declínio nos sócios, mas isto verificava-se em quase todos os campos naturistas de então, principalmente porque as pessoas começaram a conjugar o naturismo com o ir para sul para as férias (o que não era tão comum antes) ou a procurar uma atmosfera mais festiva. A maioria dos empreendimentos naturistas seguiram um caminho mais comercial para aumentar os lucros, com grandes festas aos fins de semana, uma maior importância na venda de álcool e concursos de “mulheres nuas” abertos ao público. O autor chama-lhe assim pois estes eventos afastavam-se da filosofia naturista e iam na direção da comercialização da nudez. Este nunca foi o estilo do seu pai.
O fim da era do Sun Valley Gardens ocorreu com a separação dos pais do autor. O pai ficou a gerir o empreendimento, mas era bastante evidente que ele não era muito social e acabou por não correr bem pois delegara sempre essa parte na esposa. De qualquer das formas, também não estava muito focado nisso e acabou por fechar. Ficaria bastante triste se visse como está agora o espaço, mas também não quis continuar a geri-lo.
E o autor? Continua a ser naturista?
A longo prazo, não continuou a “ser naturista”, isto é, não continuou a frequentar parques naturistas. Viajava frequentemente pelo mundo e a parte do naturismo não foi uma prioridade. Fez férias em resorts naturistas nas Caraíbas e visitou muitas praias naturistas nas suas viagens. Pensa que a principal coisa que lhe ficou da sua educação foi compreender que a nudez por si só não é sexual. Toda essa confusão acerca de algumas partes do corpo estarem ou não visíveis, ou a ideia que o homem (ou a mulher) “não se consegue controlar” se virem demasiada pele, é ridícula, para o autor. Aplaude a legalidade do topless em Ontario, mas também reconhece que o assédio, a cobiça e os piropos às mulheres que escolhem andar em topless, faz com que os homens não permitam às mulheres usufruir desta liberdade legal. È uma situação em que todos perdem.
Também tornou o autor bastante recetivo a uma grande variedade de formas de viver. Viveu em muitos locais do mundo, sentiu-se sempre confortável com a ideia “da forma como fazemos as coisas por aqui” não ser “a melhor” e certamente a única forma de viver e é inflexível quanto à ideia de as pessoas poderem escolher a sua forma de viver, desde que isso não prejudique diretamente a liberdade dos outros. Para o autor, seja gay, hétero, bi, poly, assexuado, o que seja, cada um deve escolher o seu género de acordo com a perceção de si próprio e como se sente confortável na própria pele; que cada um professe a que religião que quiser, ou nenhuma, mas não obrigue os outros às suas crenças; que cada um trate as pessoas de todas as etnias e culturas de igual forma e que as valorize.
Isto é mais que mera “tolerância”, é aceitação afirmativa, e o naturismo (bem como o multiculturalismo canadiano) foi a sua forma de lá chegar.
Adaptado por José Luís Vieira, a partir do texto original de Michael Ruehle, em 13-01-2021
https://clothesfree.com/f/growing-up-with-nudists
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