Dar a cara pelo Naturismo - Artigos II - Associação Pensamentos ao Vento

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DAR A CARA PELO NATURISMO
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Num artigo do blogue Mundo Despido [1], é colocada a questão do porquê do movimento naturista não crescer e faz-se a pergunta aos leitores, enquanto naturistas que reclamam dessa falta de crescimento, se divulgam, eles próprios, o naturismo, se falam com os familiares e amigos do naturismo, se o assumem nas redes sociais. Na maioria das vezes, não. E acrescentam ainda “Aí te digo, como algo tão bonito e simples pode ser tão banalizado dessa maneira e pelos próprios do meio?!!”

Este é realmente um dos problemas do Naturismo, o não assumir da própria opção por este modo de vida, e fica a questão, se é efetivamente bom optar por este modo de vida, então por que razão os seus adeptos não se assumem e não divulgam perante os seus familiares, amigos e conhecidos a sua opção de entender o vestuário como algo necessário apenas em determinadas ocasiões, como forma de proteção contra os elementos?

Sendo o Naturismo uma forma de viver em harmonia com a Natureza caracterizada pela prática da nudez social, com o propósito de favorecer a autoestima, o respeito pelos outros e pelo meio ambiente, e se entendermos como autoestima a aceitação do próprio corpo e das nossas próprias opções independentemente daquilo que a sociedade indica como “socialmente correto e aceitável”, ao não assumirmos perante os outros a nossa opção pelo Naturismo, continuaremos a poder ser considerados naturistas na medida em que não nos assumimos frontalmente enquanto tal? Creio que não.

Ao não assumirmos que somos naturistas, ao não explicarmos porque preferimos viver sem roupas sempre que tal nos seja possível, não estamos a criar condições para o desenvolvimento e desmistificação do Naturismo. Estamos inclusive a prejudicar o movimento. Uma vez que não assumimos a nossa posição, estaremos a passar a imagem de que o Naturismo é algo que se deve ocultar, que deve ser mantido em segredo, que não deve ser divulgado. Estamos a contribuir para que a restante sociedade, menos informada, possa continuar a conjeturar o Naturismo como algo diabólico, impuro, quando na verdade o Naturismo é exatamente o contrário.

No mesmo dia que li o artigo, surgiu um indivíduo no grupo da cidade onde vivo a perguntar, num tópico onde publicitava a 3ª Caminhada Noturna Naturista, se depois da caminhada os participantes poderiam divertir-se entre eles… A resposta foi que os participantes já se divertem entre eles com a própria caminhada, o convívio, a conversa, as piadas, o simples contacto pleno com a Natureza. Em mensagem privada perguntou se a Associação organizava convívios sexuais. Não, organizamos convívios naturistas que nada têm que ver com sexo. Ainda perguntou se eu conhecia algum espaço ou entidade em Sacavém que os organizasse. Não, não conheço. Curiosamente, e para seu próprio benefício, apagou a mensagem no tópico.

Esta é a imagem que os naturistas de armário passam à sociedade ao ocultar a sua opção. Para uma boa parte da sociedade não passamos de um monte de gente despudorada, tarados sexuais, anormais, e outras coisas piores, e apenas podem imaginar a suruba que vai nos encontros e convívios desta gente desmiolada. Se não explicamos as nossas opções aos outros, como podem eles saber o que são essas opções? Se não explicamos o que é o Naturismo, se não mostramos o que é o Naturismo, as pessoas apenas podem conjeturar sobre o que é o Naturismo. Se não explicamos a uma sociedade, que acredita que estar despido é sinónimo de desejo sexual, que o Naturismo nada tem de sexual, e se ainda por cima fazemos segredo do facto de termos aderido a essa filosofia de vida, como podemos retirar do imaginário dessa sociedade a ligação entre nudez e sexo? Não podemos.

Essa é uma das principais razões de existir da Associação Pensamentos ao Vento. Congregar pessoas naturistas e não-naturistas mostrando que todos somos iguais, apenas com a diferença que não temos qualquer problema em andar sem roupa, pois consideramos isso a condição natural do ser humano. Ensinar que ser naturista não é ser despudorado, pelo contrário, é ter consciência que nem o pudor nem o desejo sexual residem no corpo. Como poderíamos passar essa imagem, esses ensinamentos, se ficássemos fechados na nossa concha, ocultando aquilo que se passa nos nossos eventos? Se só o mostrássemos aos naturistas e fechássemos as portas aos não-naturistas, apenas estaríamos a contribuir para aumentar o ocultismo sobre o naturismo, deixando, mais uma vez, ao critério do imaginário de cada um que visse vedada a sua entrada, aquilo que na realidade o Naturismo não é.

Como poderia eu assumir responsabilidades e movimentar uma associação virada para a divulgação do Naturismo se não assumisse publicamente o Naturismo como opção de vida? Não podia, em consciência, assumir qualquer responsabilidade no seio naturista uma vez que não estaria a ser honesto comigo, nem com os outros. E ao não ser honesto comigo nem com os outros estaria a violar a diretriz naturista que diz que devo respeitar a mim próprio e aos outros.

Assumir e ser confrontado com uma reação negativa por parte dos outros é uma oportunidade de desmistificar o Naturismo. É uma oportunidade de explicar aos outros que o Naturismo é apenas ser como qualquer outra pessoa com a diferença que vemos as roupas como um acessório que nem sempre é necessário. É uma oportunidade de explicar que o Naturismo não é sobre sexo, é sobre ser um ser humano livre de constrangimentos impostos pela sociedade. Constrangimentos que apenas visam o controlo do indivíduo e da própria sociedade.

Não assumir é prejudicar o Naturismo e os naturistas.

Assumir o Naturismo é ser naturista.

[1] http://www.mundodespido.com/2017/08/por-que-o-naturismo-nao-cresce.html
Artigo de opinião por José Luís Vieira
em 30/08/2017
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