Tirar a roupa é fácil - Artigos II - Associação Pensamentos ao Vento

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Tirar a roupa é fácil
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Perguntaram-me como praticar Naturismo. A resposta a isso é simples: associado à prática de cidadania, basta ter vontade para tirar a roupa socialmente.
Mas não será assim tão simples como possa parecer. Antes de nos despirmos, devemos nos livrar das teias de aranha no sótão. E isto pode ser mais difícil do que se pensa. Estas podem ser persistentes e não será com facilidade que se consegue a sua remoção. Podemos ter medo das aranhas e o toque da seda pode fazer-nos impressão.

Falar por parábolas pode ser bonito, mas algumas pessoas poderão não compreender o sentido que se pretende.

As aranhas são as pessoas que nos ensinaram a ser quem somos, aqueles que, mesmo sem elas próprias saberem e nós próprios nos apercebermos, nos passaram os seus valores, os seus temores, as suas ansiedades, os pré e preconceitos, as tais teias de aranha; ensinamentos que ficam connosco e que por vezes nos impedem de ser quem gostaríamos de ser, que nos impedem de ousar em ir um pouco mais além, por respeito, por receio, aos nossos mentores, com medo de ir contra os valores adquiridos.

Desde que nascemos que aprendemos a absorver os valores da família e, de uma forma mais abrangente, os valores da sociedade em que nos inserimos. Se tivermos a capacidade para pensarmos fora da caixa, se tivermos a capacidade para questionar o que nos foi imposto e transmitido, então estaremos no caminho para que, por nós próprios, possamos formar uma opinião própria sobre todo e qualquer tema. Muitas das vezes, será necessário experienciar determinada ação para podermos, em consciência, formar uma opinião, sendo que tal poderá não ser necessário para o estudo de determinado tema, desde que o consigamos fazer de forma objetiva (Como poderia um professor de história ensinar a disciplina sem ter passado pelas efemérides que ensina? Baseando-se nos relatos de quem participou). Apesar disto, os pré-conceitos que nos foram sendo transmitidos poderão ainda ter alguma influência na forma como vivemos essas experiências que poder-se-ão tornar-se em más experiências, e se não tivermos a capacidade para retirar as tais teias de aranha, de ignorarmos os tais conceitos que nos foram transmitidos, dificilmente poderemos gozar da liberdade que o Naturismo nos proporciona.

A influência dos valores cristãos, daquilo que nos ensinaram a temer, a forma como a nudez (não) nos foi mostrada e criticada na sua simplicidade, faz-nos pensar duas (ou mais) vezes antes de darmos um passo na direção da nudez social. Curiosamente, tantos séculos de ensinamentos que nos deveriam ter direcionado para a honestidade e simplicidade, afinal afastaram-nos desses valores e acabamos por viver numa sociedade em que se dá mais importância ao ter do que ao ser, em que as posses são valorizadas em detrimento das relações pessoais positivas e dos afetos, em que a imagem exterior é mais importante que os valores humanos, em que é preferível parecer bem do que estar bem.
O Naturismo acaba por contrariar os atuais valores ativos da sociedade que cada vez se centra mais na individualidade. Curiosamente, o Naturismo aproxima-se bastante dos valores cristãos, mais do que a maioria da comunidade cristã. Mas os naturistas também não serão cidadãos exemplares de uma sociedade perfeita. Cada um de nós possui os seus próprios valores, não será por despirmos as roupas que despimos também todas as máscaras sociais que nos acompanham desde que aprendemos a ser pessoas, as tais teias de aranha que conseguimos superar relativamente à nudez, mas que não ultrapassámos relativamente a outros valores da sociedade que nos foram incutidos.

E esta é a parte do Naturismo que necessita de acompanhar o despojamento das roupas: a quebra das máscaras sociais, o reavaliar os valores que nos foram impostos, ser cidadão o mais exemplar possível. Esta é a parte difícil de praticar Naturismo e, no fundo, a sua parte fundamental, comum também à sociedade no seu geral. Aprender a respeitar os outros e tudo o que nos rodeia.

Porque tirar a roupa é fácil. Todos o fazemos quando tomamos banho, mas isso não faz de nós naturistas.

Artigo de opinião de José Luís Vieira
em 01/08/2017
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